sábado, 27 de setembro de 2025

Mulungu

 

🔬 Mulungu (Erythrina falcata): potencial fitoterápico e aplicações em saúde
Explore os aspectos botânicos, farmacológicos e ecológicos desta espécie nativa do Brasil, utilizada tradicionalmente como calmante natural. Pesquisas científicas destacam a presença de alcaloides eritrínicos com comprovada ação ansiolítica e sedativa, além de potenciais propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Saiba mais sobre seus usos medicinais, aplicações em paisagismo e recomposição florestal, bem como as diferenças em relação a outras espécies do gênero Erythrina.

Ficha técnica — Mulungu (Erythrina falcata Benth.)

1. Nome científico e classificação

  • Nome científico: Erythrina falcata Benth.

  • Classificador: George Bentham (Benth.).

  • Família: Fabaceae (subfamília Faboideae).

  • Gênero: Erythrina (≈ 100 espécies em regiões tropicais e subtropicais).

2. Nomes populares

Mulungu, corticeira-da-serra, sapatinho-de-judeu, suinã (variação regional). Em inglês: Brazilian coral tree / mulungu.


3. Descrição botânica

Erythrina falcata é uma árvore caducifólia a semi-caducifólia de porte médio a grande que pode atingir 10–20 m de altura em condições favoráveis. O tronco é robusto e frequentemente espinhoso nos ramos; a casca é relativamente grossa e facilmente destacável em lâminas — característica que favorece o uso tradicional da “casca”/entrecasca para fins medicinais. As folhas são compostas, pinnadas com 3 folíolos grandes (trinadas), lâminas coriáceas, superfície verde escura. As raízes formam um sistema pivô com ramificações laterais. A inflorescência é uma panícula racemosa de flores papilionáceas (como é típico das Fabaceae), grandes, bilaterais e geralmente de cor vermelho-alaranjada — atraentes para polinizadores. O fruto é uma vagem leguminosa contendo sementes aladas/ovoidais. Do ponto de vista reprodutivo, polinização é feita por insetos e aves; fenologia: brotação de folhas e floração geralmente ligadas a estações secas/úmidas conforme a região, com intensa floração em certas épocas do ano.


4. Região de origem e ocorrência no Brasil

  • Origem: continente sul-americano; espécies nativas da Mata Atlântica e florestas subtropicais do Brasil meridional / sudeste.

  • Distribuição no Brasil: encontrada no Sul, Sudeste e pontos de Mata Atlântica/ícones do Cerrado/áreas de transição; também cultivada como ornamental e para recomposição florestal em diversas regiões.


5. Usos medicinais (tradição e evidência)

  • Uso tradicional: na fitoterapia tradicional brasileira, a casca, flores e folhas do mulungu são usadas como calmantes, sedativos, ansiolíticos, analgésicos e antiespasmódicos; também há relatos populares de uso para insônia, agitação, dor e problemas nervosos.

  • Evidência científica: estudos farmacológicos identificaram alcaloides tetracíclicos (p.ex. erythravine, erythrinina, hydroxyerythravine) e outros alcaloides com atividade sobre o sistema nervoso central — demonstrando efeitos ansiolíticos e sedativos em modelos animais e in vitro. Pesquisas apontam potencial ansiolítico comparável a benzodiazepínicos em alguns modelos pré-clínicos, além de efeitos analgésicos e moduladores do sistema nervoso. Contudo, a evidência clínica em humanos é limitada, e a segurança/toxicidade precisa ser respeitada.


6. Modo de usar e preparação (tradição popular)

  • Infusão (chá) de casca ou folhas: 1–2 g (pequeno pedaço de casca ou 1 colher de chá de pó) em 150–250 mL de água quente; abafar 5–10 minutos; coar. Tomar 1 xícara à noite para efeito sedativo leve.

  • Tintura/extrato alcoólico: preparado comercialmente em extratos padronizados; dose conforme fabricante e orientação profissional.

  • Flores: em algumas regiões as flores são usadas em decocções ou infusões; porém atenção redobrada à dosagem.

Importante: os métodos e doses variam muito entre tradições; não use doses altas nem prolongadas sem supervisão médica/fitoterápica.


7. Indicações fitoterápicas (resumo)

  • Transtornos ansiosos leves (adjuvante).

  • Insônia de origem nervosa (uso noturno de curto prazo).

  • Espasmos musculares e dores de origem nervosa (relatos tradicionais).

  • Uso tópico: cataplasmas em pequenas inflamações (uso tradicional pontual).

(A utilização como substituto de psicotrópicos deve ser feita apenas sob orientação médica. Evidências humanas robustas ainda são insuficientes.)


8. Receita extemporânea medicinal (receita tradicional; apenas para referência)

Decocção doméstica para relaxamento (uso ocasional)

  • 1 colher de chá rasa de casca seca picada (≈ 1–2 g) ou 1 colher de chá de folhas secas.

  • 200–250 mL de água.
    Ferver 3–5 minutos, deixar em repouso 5–10 minutos, coar. Tomar apenas 1 xícara à noite. Não exceder doses; interromper se houver tontura, fraqueza muscular ou outros sinais adversos. Não usar com sedativos ou álcool.


9. Possível toxicidade e interações medicamentosas

  • Alcaloides de Erythrina têm ação farmacológica relevante: alguns compostos apresentam efeito curare-like (bloqueio neuromuscular em altas doses) e outros efeitos cardiovasculares. Relatos e estudos indicam risco de depressão respiratória, fraqueza muscular e interação aditiva com sedativos/benzodiazepínicos/álcool.

  • Contraindicações: gestantes, lactantes, crianças, pacientes sob terapia com sedativos, ansiolíticos, antidepressivos, anti-hipertensivos, anticoagulantes e quimioterápicos devem evitar o uso.

  • Efeitos adversos reportados: sonolência excessiva, fraqueza, tontura, redução da pressão arterial, náuseas, em casos extremos problemas respiratórios.

  • Aviso: uso contínuo ou em doses elevadas pode ser perigoso; atenção a qualidade e padronização do produto (casca/folha/extração).


10. Usos no paisagismo

  • Valor ornamental alto: floração vistosa (flores vermelhas/alaranjadas) e porte imponente fazem do mulungu uma excelente escolha para parques, praças e grandes jardins.

  • Atributos: fornece sombra, flores atraem aves e polinizadores; tronco e copa têm apelo estético sazonal (florada abundante).

  • Atenção no plantio urbano: ramos espinhosos (em algumas espécies), raízes podem ser volumosas — escolher distância adequada de estruturas.


11. Usos em recomposição florestal

  • Papel ecológico: espécies de Erythrina fixam nitrogênio por rizóbios → contribuem para a recuperação inicial de solos degradados e enriquecimento de nitrogênio na restauração. São úteis em consórcios para recuperação de áreas degradadas e corredores ecológicos.

  • Recomendação: prefira material genético local e plantas de viveiros certificados para garantir adaptação e evitar impactos genéticos.


12. Dicas de cultivo

  • Clima: tropical a subtropical; tolera verões quentes e períodos secos curtos.

  • Solo: prefere solos bem drenados, férteis; suporta solos médios.

  • Luz: pleno sol a meia-sombra — pleno sol favorece floração.

  • Propagação: por sementes (germinabilidade boa com sementes frescas) e por estaquia/estaquia semi-lenhosa (propagação vegetativa utilizada para clonagem de fenótipo). Estudos mostram alta taxa de enraizamento por estaquia quando manejada adequadamente.

  • Manejo: poda de formação; proteção de mudas contra herbivoria; adubação orgânica para melhor estabelecimento.


13. Curiosidades

  • O nome “mulungu” é de origem tupi e é aplicado a várias espécies de Erythrina no Brasil.

  • Além do uso medicinal, Erythrina tem valor cultural e paisagístico em várias regiões da América Latina.

  • Alguns estudos científicos confirmam efeitos ansiolíticos de alcaloides de Erythrina em modelos animais, tornando o gênero objeto de interesse farmacológico.


14. Comparação, semelhanças e diferenças com outras espécies do gênero Erythrina

  • Erythrina mulungu (às vezes tratado como espécie separada) vs E. falcata: nomes regionais podem confundir — várias espécies regionais (E. velutina, E. speciosa, E. crista-galli, E. mulungu) são chamadas de mulungu em diferentes áreas; morfologia (cor/forma das flores, espinhos, tamanho da folha) e composição alcaloídica variam entre espécies.

  • E. crista-galli — muito ornamental (flores vermelhas em inflorescências vistosas) e amplamente cultivada; comestibilidade de flores relatada para algumas espécies (flores cozidas em algumas culturas), enquanto Erythrina que produzem alcaloides com atividade neuromuscular exigem cautela.

  • E. velutina / E. mulungu (nome usado para E. mulungu em literatura) — ambas reportadas em estudos farmacológicos por efeitos ansiolíticos; composições químicas similares porém proporções de alcaloides diferem, influenciando potência e toxicidade.

  • Resumo prático: todas as espécies do gênero partilham a presença de alcaloides tetracíclicos; por isso não é seguro extrapolar dos usos etnobotânicos de uma espécie para outra sem confirmação botânica e química — usar identificação correta e material padronizado.


15. Bibliografia desta ficha

  1. Almeida EE, Vendruscolo G, Simões CMO. Caracterização farmacognóstica da espécie Erythrina falcata. Revista Brasileira de Farmacognosia (RBFar). 2010. — estudo farmacognóstico e registros etnobotânicos.

  2. Dantas MC, Marchioro M, et al. Central nervous system effects of crude extracts from Erythrina spp. (modelos pré-clínicos). Journal of Ethnopharmacology / literatura correlata. 2004. — estudos farmacológicos sobre efeitos no SNC.

  3. Useful Tropical Plants / The Ferns and Useful Plants database. Erythrina falcata — ficha de usos tradicionais, cultivo e características. (online resource) — acesso e consulta para informações de distribuição e usos.

  4. Plants of the World Online (Kew) — Erythrina falcata Benth. — confirmação taxonômica e distribuição.

  5. Rain-Tree / Tropical Plant Database — Erythrina (mulungu) — resumo de alcaloides e propriedades tradicionais.

  6. PFAF (Plants for a Future) — Erythrina crista-galli / Erythrina spp. — notas sobre usos alimentares das flores em algumas espécies e advertências tóxicas.

  7. Revisões recentes sobre o potencial farmacológico e toxicidade de espécies de Erythrina — (ex.: revisão em RSD Journal / artigos PMC sobre farmacologia e toxicidade do género Erythrina, 2018–2025).

  8. Dias, S. A., et al. Neuropharmacological and genotoxic evaluation of ethanol extract of Erythrina falcata leaves. Revista Brasileira de Farmacognosia, 23(2): 336–343, 2013. DOI: 10.1590/S0102-695X2013000200004 SciELO+1

  9. Susilawati, E., et al. Pharmacology activity, toxicity, and clinical trials of the genus Erythrina: A review. Frontiers in Pharmacology, 2023. DOI: 10.3389/fphar.2023.1281150 PMC

  10. Rambo, D. F., et al. The genus Erythrina L.: A review on its alkaloids. Phytotherapy Research, 2019. DOI: 10.1002/ptr.6321 Wiley Online Library

  11. Jiménez-Cabrera, T., Bautista, M., Velázquez-González, C., Jaramillo-Morales, O. A., Guerrero-Solano, J. A., Urrutia-Hernández, T. A., & De la O-Arciniega, M. Promising Antioxidant Activity of Erythrina Genus: An Alternative Treatment for Inflammatory Pain? International Journal of Molecular Sciences, 2021, 22(1): 248. DOI: 10.3390/ijms22010248 MDPI

  12. Adetunji, T. L., Amarachi Acho, M., Samuel, V. O., Ohoro, C. R., Ramulondi, M. Erythrina velutina Willd.: A review of its traditional uses, phytochemistry, pharmacology, and toxicology. Journal of Ethnopharmacology, 2024. DOI: 10.1016/j.jep.2023.117273 ResearchGate

Mulungu - Erythrina falcata Benth. - Aspécto da árvore - Foto: José Carlos Bueno - Inconfidentes-MG- 09/2025

Mulungu - Erythrina falcata Benth. - Inflorescência - Foto: José Carlos Bueno - Inconfidentes-MG- 09/2025

Mulungu - Erythrina falcata Benth. - Inflorescência - Foto: José Carlos Bueno - Inconfidentes-MG- 09/2025

Mulungu - Erythrina falcata Benth. - Ramo florido- Foto: José Carlos Bueno - Inconfidentes-MG- 09/2025


sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Ipê-amarelo

🌼 Ipê-amarelo: beleza que também nutre e cura! 🌼

Muito além de sua imponência no paisagismo brasileiro, o ipê-amarelo (Handroanthus spp.) guarda segredos valiosos: suas flores podem ser usadas como PANC, trazendo cor e sabor delicado a pratos criativos. Além disso, a árvore é tradicionalmente reconhecida por suas propriedades medicinais, especialmente relacionadas ao fortalecimento do organismo.

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🌼 Ficha técnica — Ipê-amarelo (Handroanthus spp.)

Identificação e classificação

  • Nome científico (sintético): Handroanthus spp. (diversas espécies de “ipê-amarelo”, p.ex. Handroanthus chrysotrichus, H. serratifolius, H. ochraceus, H. impetiginosus). 

  • Classificador: gênero Handroanthus Mattos (revisão taxonômica separou muitas espécies antes incluídas em Tabebuia).

  • Família botânica: Bignoniaceae

  • Nomes populares: ipê-amarelo, pau-d’arco amarelo, yellow ipe, pau d’arco (em alguns usos populares este último também se refere a espécies produtoras de “lapachol”).


Descrição botânica (texto fluido)

Os ipês-amarelos são árvores decíduas a semi-decíduas de porte variado, normalmente alcançando entre 6 e 20 m de altura conforme espécie e condições ambientais. Apresentam troncos retos, casca áspera e copa ampla; folhas compostas (paripinadas) típicas da família Bignoniaceae, com folíolos opostos, superfície coriácea e pecíolos bem definidos. A característica marcante são as inflorescências terminais ou axilares em grandes cachos, com flores grandes, tubulares e amarelas (em espécies do grupo Handroanthus), muito vistosas na época de floração. Sistema radicular formado por raiz pivotante e ramificações profundas; algumas espécies toleram solos rasos e períodos de seca moderada, mas em geral preferem solos bem drenados e profundos. A fenologia é marcada por uma florada conspícua sazonal (frequentemente no fim do período seco / início das chuvas), período em que praticamente toda a árvore se cobre de flores amarelas, antes ou durante o rebrota das folhas. 


Origem e distribuição / onde encontrar no Brasil

Espécies de Handroanthus são nativas das Américas tropicais e subtropicais; no Brasil encontram-se amplamente em biomas como Mata Atlântica, Cerrado e transição com Caatinga, dependendo da espécie (p.ex. H. serratifolius em áreas mais amplas do Sudeste/Norte do Brasil). Hoje o ipê-amarelo é também amplamente utilizado como árvore urbana, ornamental e em projetos de restauração ecológica em diversas regiões brasileiros. 


Usos medicinais (tradição e evidência)

  • Resumo tradicional: em diversas regiões o inner bark (casca interna) e extratos de espécies antes alocadas em Tabebuia (hoje Handroanthus spp.) são usados tradicionalmente para problemas inflamatórios, infecções, cicatrização e como “tônico” — famoso é o uso de “pau-d’arco” (cortiça/raiz) em chás/tinturas. 

  • Compostos bioativos: várias espécies contêm naphthoquinonas (p. ex. lapachol e derivados), flavonoides e compostos fenólicos com atividade anti-inflamatória, antimicrobiana e antioxidante demonstrada em estudos pré-clínicos. Essas moléculas explicam parte das aplicações tradicionais e do interesse farmacológico. 

Importante: a evidência clínica humana robusta é limitada. Muitos estudos são in vitro ou em animais; algumas moléculas (p.ex. lapachol) apresentam toxicidade em determinadas doses — ver seção de toxicidade. 


Modo de uso e preparação (uso tradicional)

  • Chá (decocção) de casca/raízes (uso popular): pedaços de casca/raízes fervidos 5–15 min e consumidos como “chá de pau-d’arco”.

  • Tinturas e extratos alcoólicos: preparações alcoólicas com padronizações comerciais (quando existentes) são usadas como formas fitoterápicas.

  • Uso externo: cataplasmas da casca para pequenos ferimentos e inflamações em práticas tradicionais.

Atenção: Preparações caseiras com casca/raízes concentram compostos ativos; por isso o uso deve ser com cautela e supervisão de profissional, especialmente em tratamentos prolongados. 


Indicações fitoterápicas (relato tradicional e linhas de pesquisa)

  • Processos inflamatórios (uso anti-inflamatório tradicional).

  • Infecções superficiais (atividade antimicrobiana demonstrada in vitro).

  • Uso como adjuvante em estados de fadiga ou “tonificação” na medicina popular.

  • Investiga-se potencial antitumoral e imunomodulador em pesquisas experimentais. 


Receita extemporânea medicinal (tradição popular — com advertências)

Decocção básica (uso tradicional, NÃO substitui orientação profissional):

  • 1–2 g (pequeno pedaço) de casca interna/raiz seca (moída)

  • 250–300 ml de água
    Ferver 5–10 minutos, coar; tomar 1 xícara, 1 vez ao dia.
    Advertência: evitar uso em gravidez, lactação, crianças e por períodos longos; risco de toxicidade com doses elevadas. Consulte sempre profissional. 


  • 🍃 Tópico Especial: Flores de Ipê-amarelo como PANC

    Evidências de uso alimentar

    • O site AMDA (“Descubra quais plantas do seu quintal são comestíveis”) afirma que flores do ipê-amarelo são usadas cruas em saladas, refogadas e até empanadas, como alternativa decorativa e saborosa no cardápio de PANCs. 

    • Portal Amazônia relata que grupos/chefs na Amazônia usam flores de ipê-amarelo (“flores do ipê”) cruas, cozidas, refogadas ou à milanesa, aproveitando sua cor vibrante e leve amargor. 

    • “Sabores do Mato – Panc’s e plantas medicinais” também menciona que as flores de Handroanthus chrysotrichus (ipê-amarelo) são comestíveis, usadas cruas em saladas, empanadas, salteadas, e que o sabor é leve, com amargor comparável ao alface ou agrião. saboresdomato.blogspot.com+1

    Possíveis usos práticos

    Com base nessas fontes, os usos alimentares viáveis para as flores de ipê-amarelo incluem:

    • Uso decorativo: realçar pratos com pétalas inteiras ou pétalas limpas.

    • Saladas cruas: adicionar flores para textura e cor.

    • Preparações fritas ou empanadas: cobertura leve de massa ou farinha para dourar.

    • Refogados leves ou salteados com alho/óleo para “flor sauté”.

    Observações de sabor e preparo

    • O sabor é descrito como leve amargor, comparável ao alface ou almeirão. Não parece haver sabor forte ou desagradável, segundo relatos. saboresdomato.blogspot.com+1

    • As flores são delicadas; recomenda-se higiene rigorosa na coleta (flores recém-abertas, limpas, sem sujeira ou poluição). 

    Limitações e lacunas

    • Falta de estudos químicos específicos sobre valor nutricional das flores de ipê-amarelo (quantidade de proteínas, vitaminas, antocianinas, compostos fenólicos etc.).

    • Poucos dados sobre possíveis toxinas ou compostos indesejados nas flores (alergênicos ou fitotóxicos).

    • Não há estudos clínicos confirmados sobre efeitos medicinais específicos atribuíveis ao consumo de flores do ipê-amarelo.


Bromatologia (informação sobre uso alimentício)

  • Observação: não aplicável como alimento — não há tabela bromatológica padrão para partes do ipê-amarelo como alimento. Se há interesse em extratos padronizados (fitoterápicos), as especificações são de conteúdo de marcadores químicos (p. ex. lapachol, flavonoides) e não de macronutrientes. 


Possível toxicidade e interações medicamentosas

  • Toxicidade conhecida: o composto lapachol, encontrado em algumas espécies (p.ex. H. impetiginosus / pau-d’arco), mostrou toxicidade reprodutiva e abortiva em modelos animais e pode ser citotóxico em doses altas; extratos não padronizados e uso prolongado sem controle são potencialmente perigosos. 

  • Interações medicamentosas: por possuir compostos bioativos, pode interagir com fármacos metabolizados pelo fígado (CYP450) e com medicamentos imunomoduladores ou citotóxicos — cuidado especial em pacientes em tratamento oncológico, com anticoagulantes e outros medicamentos de largo índice terapêutico.

  • Contraindicações: gestantes, lactantes, crianças, pacientes com doença hepática grave, pacientes em quimioterapia (sem orientação médica). Sempre consultar médico/fitoterapeuta antes do uso. 


Usos no paisagismo

  • Valor ornamental elevado: floração vistosa e sazonal (massas de flores amarelas) torna o ipê-amarelo muito empregado em avenidas, parques e jardins públicos. É uma das espécies símbolo do paisagismo urbano brasileiro. 

  • Vantagens: resistência a seca (dependendo da espécie), baixa manutenção, atração de polinizadores (abelhas e aves nectarívoras).

  • Atenção: escolher espécies nativas e materiais de propagação adequados para evitar problemas com raízes em calçadas e infraestrutura urbana.


Usos em recomposição florestal (restauração ecológica)

  • Papel ecológico: espécies de Handroanthus são tipicamente usadas em projetos de restauração por serem nativas de diversos ecossistemas brasileiros e por promoverem recursos para fauna (néctar, abrigo). Estudos genéticos mostram variação adaptativa entre populações, o que reforça a necessidade de usar material genético local na rest. ecológica. 


Dicas de cultivo

  • Clima: tropical a subtropical; muitas espécies suportam períodos secos.

  • Solo: prefira solos profundos e bem drenados; tolera solos médios a férteis.

  • Luz: pleno sol estimula floração abundante.

  • Propagação: por sementes (germinabilidade melhor com sementes frescas) ou mudas enxertadas; plantio em espaçamento que permita copa ampla.

  • Poda: poda de formação e remoção de ramos mortos após a floração. 


Curiosidades

  • Taxonomia: muitas espécies de ipê-amarelo foram reclassificadas do gênero Tabebuia para Handroanthus após estudos moleculares (2007 e posteriores). 

  • Produção de mel: flores ricas em néctar fazem do ipê-amarelo importante para apicultura. 


Bibliografia desta ficha 

  1. Grose, S. O. & Olmstead, R. G. (2007). Taxonomic Revisions in the Polyphyletic Genus Tabebuia s.l. Systematic Botany. — revisão que fundamentou a segregação de Handroanthus. BioOne

  2. Ryan, R. Y. M. et al. (2021). Tabebuia impetiginosa: A Comprehensive Review on Traditional Uses, Phytochemistry and Immunopharmacological Properties. (PMC review) — revisão sobre usos tradicionais, compostos e evidências farmacológicas. PMC

  3. Nahar J. et al. (2023). Roasting Extract of Handroanthus impetiginosus Enhances ... (MDPI Applied Sciences) — estudo de compostos e potenciais bioativos. MDPI

  4. UF/IFAS & Gardening extension pages (IFAS, Nparks) — perfis horticulturais e uso em paisagismo para Handroanthus chrysotrichus/impetiginosus. Ask IFAS - Powered by EDIS+1

  5. World Flora Online / WFO & plant lists — confirmações taxonômicas atualizadas sobre Handroanthus spp. e distribuição. wfoplantlist.org

  6. EMBRAPA - Espécies Arbóreas Brasileiras - Ipê-amarelo -vol 1.   https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/1140083/1/Especies-Arboreas-Brasileiras-vol-1-Ipe-Amarelo.pdf



Ipê-amarelo - Handroanthus spp - Detalhe da flor - foto: José Carlos Bueno - Borda da Mata-MG - 09/2025
Ipê-amarelo - Handroanthus spp - árvore florida - foto: José Carlos Bueno - Borda da Mata-MG - 09/2025

Ipê-amarelo - Handroanthus spp - Inflorescência - foto: José Carlos Bueno - Borda da Mata-MG - 09/2025

Ipê-amarelo - Handroanthus spp - Detalhe da árvore florida - foto: José Carlos Bueno - Borda da Mata-MG - 09/2025


domingo, 14 de setembro de 2025

Jabuticaba

 

🔬 Jabuticabeira (Plinia cauliflora): fonte de antocianinas e potencial nutracêutico
Estudos confirmam que a jabuticaba apresenta elevadas concentrações de antocianinas e compostos fenólicos, antioxidantes naturais com ação anti-inflamatória, cardioprotetora e preventiva contra doenças crônicas. Além de seu valor cultural e gastronômico, a espécie é considerada uma PANC de grande relevância, unindo tradição alimentar e evidências científicas em saúde. Descubra suas propriedades nutracêuticas, medicinais e PANC, aprenda receitas caseiras e veja como aproveitar essa joia nativa da nossa biodiversidade!

🌳 Ficha Técnica — Jabuticaba (Plinia cauliflora)

Identificação

Nome científico: Plinia cauliflora (Mart.) Kausel (sin.: Myrciaria cauliflora, Myrciaria jaboticaba em muitos trabalhos).
Classificador: (Mart.) Kausel.
Família botânica: Myrtaceae.
Nomes populares: jabuticaba, jaboticaba, jabuticabeira, Brazilian grape tree.


Descrição botânica

A jabuticabeira é uma árvore perene, de porte geralmente pequeno a médio (2–10 m em cultivo, podendo atingir maiores alturas em condições naturais), de copa densa e tronco relativamente liso. As folhas são simples, opostas, coriáceas, de coloração verde-brilhante, com nervura central pouco saliente. A espécie é notável pela caulifloria: as flores e frutos nascem diretamente sobre o tronco e ramos grossos, em estróbilos florais discretos que se tornam os frutos globosos. As flores, pequenas e brancas, dão origem a bagas de casca espessa (epicárpio) e polpa branca, suculenta e perfumada. As raízes são do tipo pivotante, adaptadas a solos bem drenados; o sistema radicular permite resistência moderada a seca, mas a planta prefere solos férteis e umidade adequada. A fenologia varia por região: florescimento e frutificação podem ocorrer uma ou mais vezes ao ano, com picos sazonais dependendo do cultivar e clima (em muitos lugares a colheita principal ocorre no outono/inverno). 


Região de origem e ocorrência no Brasil

A jabuticabeira é nativa do Sudeste do Brasil, com registros históricos em Minas Gerais e estados vizinhos; hoje encontra-se amplamente cultivada e naturalizada em muitas regiões do país, especialmente em pomares domésticos, quintais e áreas de Mata Atlântica remanescente. A espécie também foi espalhada para outras regiões tropicais e subtropicais. 


Pigmentos (antocianinas): tipo, quantidade, uso e importância para a saúde

  • Tipo de pigmento: as cascas das jabuticabas acumulam antocianinas (grupo de flavonoides); compostos identificados incluem cianidina-3-glucosídeo e outros derivados glicosilados da cianidina e delfinidina, além de uma variedade de fenólicos e taninos. Essas moléculas conferem a coloração arroxeada-negra característica do fruto. 

  • Faixa de conteúdo: estudos reportam variações entre cultivares e métodos analíticos, com conteúdos de antocianinas na casca tipicamente entre ≈60 a >280 mg de cianidina-3-glucosídeo equivalente por 100 g de fruto (alguns trabalhos em farinhas/peels concentrados reportam valores ainda maiores — centenas a >1000 mg/100 g em preparações de casca seca). A variabilidade é alta entre variedades, estágio de maturação e método de extração.

  • Usos dos pigmentos: antocianinas são pigmentos funcionais utilizados em alimentos (corantes naturais), cosméticos e produtos nutracêuticos; a casca de jabuticaba tem sido transformada em farinhas, extratos e corantes naturais para aplicações alimentares e cosméticas. 

  • Importância para a saúde: antocianinas e outros fenólicos da jabuticaba exibem forte atividade antioxidante in vitro, além de efeitos antiinflamatórios, antimicrobianos e potenciais efeitos protetores sobre células hepáticas, metabolismo glicídico e até propriedades antitumorais observadas em estudos pré-clínicos. Esses efeitos sustentam o interesse nutracêutico dos frutos e de seus derivados. Contudo, muitos estudos são pré-clínicos ou in vitro; a biodisponibilidade e os efeitos em humanos dependem de dose e formulação. 


Usos medicinais (tradição e evidência)

  • Tradição popular: infusões e xaropes de jabuticaba são usados popularmente para tratar diarréias, inflamações da garganta e como tônico. Há usos tradicionais para problemas digestivos e na forma de xaropes e xarops caseiros. 

  • Evidência moderna: revisões e estudos apontam atividade antioxidante, antiinflamatória, antimicrobiana e citotóxica seletiva de extratos de casca e sementes; há também estudos sobre efeitos benéficos em marcadores metabólicos e potencial antitumoral em modelos experimentais. Ainda assim, indicações clínicas padronizadas para uso medicinal humano exigem ensaios clínicos mais robustos. 


Modo de usar e preparação (uso fitoterápico tradicional)

  • Infusão de casca: secar cascas, 1–2 g (ou 1 colher de sopa de casca picada) em 200–250 ml de água quente; infundir 5–10 minutos; coar e beber para uso adstringente/antidiarreico.

  • Xarope caseiro/extrato: cozinhar frutas com açúcar até reduzir e concentrar; usado tradicionalmente como tônico.

  • Extratos padronizados: em produção industrial, extratos de casca padronizados em antocianinas/compostos fenólicos são a forma farmacêutica mais controlada. SciELO+1


Indicações fitoterápicas (resumo)

  • Antioxidante e protetor celular (uso nutracêutico).

  • Adstringente e antidiarreico (uso popular).

  • Potencial anti-inflamatório e antimicrobiano (uso investigado).

  • Suporte metabólico (estudos sugerem efeitos em marcadores glicêmicos/hipolipemiantes em modelos experimentais). ScienceDirect+1


Receita extemporânea medicinal (caseira, tradicional)

Xarope concentrado de jabuticaba (uso como tônico/adstringente)

  • 1 kg de jabuticabas lavadas (frutas inteiras)

  • 500–800 g de açúcar orgânico (ajustar conforme preferência)

  • 500 ml de água
    Preparo: macere as frutas, ferva com água por 15–20 min em fogo baixo; coe separando o líquido; junte o açúcar ao líquido e cozinhe até atingir consistência de xarope; armazenar em frascos esterilizados. Dose: 1 colher de sopa diluída em água, 1–3x/dia, como tônico. (Uso tradicional; atenção a pessoas com restrição de açúcar). phcogrev.com


Usos como PANC e receita alimentar

  • Uso alimentar / PANC: frutos consumidos in natura; amplamente usados em sucos, geleias, vinhos, licores, sorvetes, e farinhas de casca. A casca (rica em fibras e antocianinas) é aproveitada industrialmente para farinhas e extratos funcionais. ScienceDirect+1

Receita — Geleia funcional de jabuticaba (caseira)

  • 1 kg de jabuticabas

  • 500–700 g de açúcar

  • Suco de 1 limão
    Preparo: cozinhar as jabuticabas com pouca água, passar por peneira para separar polpa e casca; juntar açúcar e limão; cozinhar até ponto; porcionar em potes. A geleia aproveita polpa e parte dos compostos da casca; ótima fonte de antioxidantes.


Bromatologia (componentes nutricionais e compostos bioativos)

Valores dependem de cultivar, maturação e se são analisados frutos inteiros ou casca concentrada. Abaixo, valores típicos / parâmetros de interesse encontrados em estudos (por 100 g de fruto fresco, valores aproximados):

  • Energia: ~50–80 kcal (fruto fresco).

  • Carboidratos (principalmente açúcares): 10–20 g.

  • Fibra dietética: 1–3 g (casca concentra muito mais fibra).

  • Vitamina C: valores relatados variam — alguns cultivares apresentam alto teor de vitamina C, até ≈50–160 mg/100 g em frutas selecionadas; variações grandes entre cultivares. 

  • Antocianinas (casca): comumente reportadas entre ≈60–300 mg c3g/100 g de fruto (em cascas ou expressando em cianidina-3-glucosídeo equivalente); preparações de casca seca / farinhas podem concentrar muito mais (centenas a >1000 mg/100 g, dependendo do método). PMC+1

  • Compostos fenólicos totais: altos (diversos estudos reportam elevada atividade fenólica). ScienceDirect

Observação: valores exatos variam fortemente por cultivar (p.ex. Sabará, Paulista, Grimal, Escarlate), estágio de maturação, condições de cultivo e método analítico; estudos recentes trazem faixas e médias que mostram potencial nutracêutico destacado. 


Possível toxicidade e interações medicamentosas

  • Toxicidade: fruto e casca são considerados seguros para consumo humano em quantidades alimentares normais. Não há relatos amplos de toxicidade da fruta madura em dietas convencionais. Estudos de extratos concentrados (sementes/cascas) demonstram atividade biológica que exige cautela em doses farmacológicas; portanto, extratos muito concentrados devem ser usados com supervisão. PMC+1

  • Interações: altas doses de polifenóis podem reduzir a absorção de ferro não heme; pessoas com anemia por deficiência de ferro devem considerar esse efeito. Como acontece com outros extratos ricos em polifenóis, podem haver interações teóricas com medicamentos que dependem de absorção intestinal; porém interações farmacológicas clinicamente relevantes são pouco documentadas e requerem mais estudos. ScienceDirect


Dicas de cultivo

  • Clima: tropical a subtropical; aprecia verões quentes e invernos amenos (tolerância limitada a geadas).

  • Solo: fértil, profundo, bem drenado, com boa matéria orgânica; pH levemente ácido a neutro.

  • Luminosidade: pleno sol a meia-sombra.

  • Plantio e manejo: propagação por sementes (germinabilidade rápida com material fresco) ou por estaquia/enchimento em viveiro; plantas jovens demandam irrigação regular; poda para manejo de copa e colheita facilitada. A jabuticabeira é de crescimento relativamente lento, com frutificação que começa alguns anos após o plantio (2–7 anos, conforme método de propagação e cultivar). 


Curiosidades

  • A jabuticaba é emblemática no Brasil: frutos que nascem no tronco atraem grande interesse visual e cultural; produtos locais (geleias, licores, vinhos, farinhas de casca) são tradicionais.

  • Pesquisas recentes avaliam reaproveitamento de resíduos de casca para extrair antocianinas e pectina, agregando valor e reduzindo desperdício. 


Bibliografia desta ficha (seleção das referências citadas)

  1. Mattos GN, et al. Anthocyanin Extraction from Jaboticaba Skin. Food Chemistry / PMC article, 2022. PMC

  2. Resende LM, et al. Characterization of jabuticaba peel flours and anthocyanin content. Food Chemistry / 2020. ScienceDirect

  3. Jornal JABB — Biochemical Characterization of Jabuticaba (Plinia cauliflora) varieties, 2024 (dados de antocianinas por variedade). sdiopr.s3.ap-south-1.amazonaws.com

  4. Bőcker R. Anthocyanin-rich jaboticaba fruit: Natural source of bioactive pigments. Review (2024). ScienceDirect

  5. Neves N. de Andrade et al. Identification and quantification of phenolic composition in jabuticaba (2021) — estudo comparativo de cultivares. ScienceDirect

  6. Sacchet C., et al. Antidepressant-Like and Antioxidant Effects of Plinia spp. PMC article, 2015. PMC

  7. Bueno TM, et al. Peel pretreatment effect and ultrasound-assisted extraction of phenolics from jabuticaba peel. Anais da ABC (2024). SciELO

  8. Silva JS, et al. Jabuticaba peel extracts in cosmetic/food applications. MDPI Cosmetics (2025). MDPI

  9. Review: Santos DT et al., Jabuticaba as a Source of Functional Pigments, Phcog Rev, 2009 — revisa propriedades das antocianinas e aplicações. phcogrev.com

  10. Missouri Botanical Garden / Plant Finder — Plinia cauliflora profile (descrição e distribuição). missouribotanicalgarden.org

Jaboticaba - Plinia cauliflora (Mart.) Kausel - Frutos pronto para consumo - Foto: José Carlos Bueno, Bueno Brandão-MG, setembro de 2025

Jaboticaba - Plinia cauliflora (Mart.) Kausel - Árvore em flor - Foto: José Carlos Bueno, Bueno Brandão-MG, setembro de 2025

Jaboticaba - Plinia cauliflora (Mart.) Kausel - Caule florido - Foto: José Carlos Bueno, Bueno Brandão-MG, setembro de 2025

Jaboticaba - Plinia cauliflora (Mart.) Kausel - Ramo e folhas, caule florido em segundo plano - Foto: José Carlos Bueno, Bueno Brandão-MG, setembro de 2025


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