A carqueja: uma das plantas medicinais mais tradicionais da fitoterapia brasileira
Amarga ao paladar, mas extremamente valorizada na medicina popular, a carqueja (Baccharis trimera (Less.) DC.) é uma das espécies medicinais mais conhecidas da América do Sul. Há séculos é utilizada como digestiva, hepatoprotetora e auxiliar nos distúrbios gastrointestinais. Atualmente, estudos científicos confirmam diversas de suas propriedades farmacológicas, tornando-a uma das plantas medicinais brasileiras mais investigadas. Seu uso, entretanto, deve ser criterioso e complementar às orientações de profissionais da saúde.
Identificação botânica
Nome científico
Baccharis trimera (Less.) DC.
Sinonímia relevante
Entre os principais sinônimos botânicos encontrados na literatura destacam-se:
Molina trimera Less.
Baccharis genistelloides var. trimera (Less.) Baker
Atualmente, Baccharis trimera é o nome aceito pelas principais bases taxonômicas internacionais.
Nomes populares
Carqueja
Carqueja-amarga
Carqueja-verdadeira
Carqueja-do-campo
Carqueja-miúda
Bacanta (algumas regiões)
Carquejinha
Classificação botânica (APG IV)
Reino: Plantae
Clado: Angiospermas
Clado: Eudicotiledôneas
Ordem: Asterales
Família: Asteraceae
Gênero: Baccharis
Espécie: Baccharis trimera (Less.) DC.
Descrição botânica
A carqueja é um subarbusto perene que normalmente mede entre 50 cm e 1,5 metro de altura. Sua característica mais marcante é a quase ausência de folhas desenvolvidas. A fotossíntese ocorre principalmente nos ramos achatados e alados, conhecidos como cladódios, que apresentam três expansões longitudinais bem evidentes — característica que originou o epíteto específico trimera.
Os ramos são verdes, rígidos e muito ramificados. As folhas verdadeiras são pequenas, simples e caducas, caindo precocemente durante o desenvolvimento da planta.
As flores são pequenas, esbranquiçadas ou creme, reunidas em numerosos capítulos típicos da família Asteraceae. Trata-se de uma espécie dióica, ou seja, existem plantas masculinas e femininas separadas.
A frutificação produz pequenos aquênios providos de papilho branco, que facilita a dispersão pelo vento, permitindo sua ampla colonização de áreas abertas.
Origem e distribuição no Brasil
A carqueja é nativa da América do Sul, ocorrendo naturalmente no Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
No Brasil é encontrada principalmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, sendo muito comum em campos naturais, áreas de Cerrado, campos rupestres, bordas de estradas, pastagens e áreas em regeneração.
Prefere ambientes ensolarados, solos bem drenados e tolera períodos prolongados de seca.
Usos medicinais e indicações fitoterápicas
A carqueja figura entre as espécies medicinais mais estudadas da flora brasileira.
Seu uso tradicional inclui:
má digestão;
sensação de estômago pesado;
dispepsia;
azia leve;
distúrbios hepáticos leves;
alterações do fluxo biliar;
perda de apetite;
constipação leve;
auxiliar em dietas para controle glicêmico (uso popular);
auxiliar no metabolismo de gorduras (uso tradicional).
Estudos farmacológicos demonstram atividades:
digestiva;
colagoga (estimula a liberação de bile);
colerética (estimula a produção de bile);
hepatoprotetora;
antioxidante;
anti-inflamatória;
hipoglicemiante (estudos experimentais);
hipolipemiante;
antimicrobiana;
gastroprotetora.
Alguns estudos sugerem potencial benefício no controle metabólico da síndrome metabólica, porém ainda são necessários ensaios clínicos adicionais.
Constituintes fitoquímicos
Os principais compostos identificados incluem:
flavonoides (especialmente hispidulina, apigenina, luteolina e nepetina);
diterpenos clerodânicos;
lactonas sesquiterpênicas;
ácidos fenólicos;
saponinas;
óleos essenciais;
compostos fenólicos antioxidantes;
taninos.
Grande parte da atividade antioxidante e hepatoprotetora está relacionada ao elevado teor de flavonoides.
Toxicidade e interações medicamentosas
Quando utilizada nas doses tradicionais, a carqueja apresenta bom perfil de segurança.
Entretanto, recomenda-se cautela nas seguintes situações:
gravidez (evitar o uso);
lactação;
crianças pequenas;
pacientes com hipotensão importante;
indivíduos com hipoglicemia.
Pessoas diabéticas que utilizam medicamentos hipoglicemiantes devem monitorar a glicemia, pois estudos sugerem possível efeito redutor da glicose.
Também existe potencial de interação com:
medicamentos para diabetes;
anti-hipertensivos;
anticoagulantes (há poucos estudos, sendo recomendada cautela).
O uso prolongado sem acompanhamento profissional não é recomendado.
Modo de uso
Tradicionalmente utiliza-se a parte aérea da planta.
Infusão
Empregar aproximadamente 2 a 3 g da planta seca para 150 a 200 mL de água fervente.
Tampar e deixar em infusão por cerca de 10 minutos.
Consumir uma a duas xícaras ao dia, preferencialmente antes das principais refeições.
O sabor bastante amargo faz parte de sua ação digestiva tradicional.
Não é recomendado adoçar excessivamente a bebida.
Sempre utilizar plantas corretamente identificadas, provenientes de cultivo próprio ou de fornecedores confiáveis, evitando material coletado em margens de rodovias, áreas contaminadas ou sujeitas à pulverização agrícola.
Usos no paisagismo
Embora seja mais conhecida como planta medicinal, a carqueja possui interessante potencial paisagístico.
Sua arquitetura formada por ramos verdes e alados cria textura diferenciada em jardins de inspiração naturalista.
É indicada para:
jardins de plantas medicinais;
jardins do Cerrado;
jardins xerófitos;
recuperação paisagística de áreas degradadas;
projetos de educação ambiental;
jardins para polinizadores.
Durante a floração atrai inúmeras abelhas nativas, borboletas e pequenos insetos benéficos.
Dicas de cultivo
A carqueja é extremamente resistente.
Solo: bem drenado, arenoso ou franco.
Luminosidade: pleno sol.
Clima: tropical, subtropical e temperado.
Irrigação: moderada.
Tolera estiagem.
A propagação pode ser feita por sementes ou estacas.
Responde bem à poda, emitindo novos brotos vigorosos.
Curiosidades
O nome "carqueja" provavelmente deriva do espanhol "carqueixa", utilizado para espécies semelhantes da Península Ibérica.
É considerada uma das principais plantas digestivas da medicina popular brasileira.
Seu sabor extremamente amargo é consequência da presença de diterpenos e lactonas sesquiterpênicas.
É muito visitada por abelhas durante a floração.
Existem diversas espécies conhecidas como carqueja, sendo importante utilizar corretamente Baccharis trimera, que é a espécie mais estudada.
Etnobotânica, cultura e história
A carqueja acompanha a história da medicina popular sul-americana há séculos. Povos indígenas e comunidades rurais utilizavam a planta principalmente após refeições pesadas e para aliviar problemas digestivos. Com a imigração europeia, seu uso difundiu-se ainda mais, tornando-se presença constante nas hortas medicinais familiares. Atualmente integra diversos programas de fitoterapia, sendo uma das espécies brasileiras mais pesquisadas em universidades.
Considerações finais
A carqueja é uma das plantas medicinais brasileiras com maior respaldo científico para uso tradicional em distúrbios digestivos leves. Seu elevado conteúdo de flavonoides e outros metabólitos bioativos explica parte das atividades antioxidante, hepatoprotetora e anti-inflamatória observadas em estudos experimentais. Apesar disso, deve ser utilizada com moderação e sempre como complemento aos cuidados médicos, especialmente em pessoas com doenças crônicas ou em uso de medicamentos.
Referências científicas
Flora e Funga do Brasil – Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Baccharis trimera. https://floradobrasil.jbrj.gov.br/
Lorenzi, H.; Matos, F. J. A. Plantas Medicinais no Brasil: Nativas e Exóticas. Instituto Plantarum, 2008.
Simões, C. M. O. et al. Farmacognosia: Da Planta ao Medicamento. Editora UFRGS/UFSC.
Corrêa, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil e das Exóticas Cultivadas. https://www.dominiopublico.gov.br/
Budel, J. M. et al. "Pharmacobotanical study of Baccharis trimera". Brazilian Journal of Pharmacognosy. https://www.scielo.br/
Oliveira, S. Q. et al. Estudos fitoquímicos e farmacológicos de Baccharis trimera. Revista Brasileira de Farmacognosia. https://www.scielo.br/
PubMed – Estudos sobre atividades hepatoprotetora, antioxidante e anti-inflamatória de Baccharis trimera. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/
Farmacopeia Brasileira, 6ª edição. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). https://www.gov.br/anvisa/
Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira. ANVISA. https://www.gov.br/anvisa/
Organização Mundial da Saúde (WHO). WHO Guidelines on Good Agricultural and Collection Practices (GACP) for Medicinal Plants. https://www.who.int/
































