domingo, 14 de setembro de 2025

Jabuticaba

 

🔬 Jabuticabeira (Plinia cauliflora): fonte de antocianinas e potencial nutracêutico
Estudos confirmam que a jabuticaba apresenta elevadas concentrações de antocianinas e compostos fenólicos, antioxidantes naturais com ação anti-inflamatória, cardioprotetora e preventiva contra doenças crônicas. Além de seu valor cultural e gastronômico, a espécie é considerada uma PANC de grande relevância, unindo tradição alimentar e evidências científicas em saúde. Descubra suas propriedades nutracêuticas, medicinais e PANC, aprenda receitas caseiras e veja como aproveitar essa joia nativa da nossa biodiversidade!

🌳 Ficha Técnica — Jabuticaba (Plinia cauliflora)

Identificação

Nome científico: Plinia cauliflora (Mart.) Kausel (sin.: Myrciaria cauliflora, Myrciaria jaboticaba em muitos trabalhos).
Classificador: (Mart.) Kausel.
Família botânica: Myrtaceae.
Nomes populares: jabuticaba, jaboticaba, jabuticabeira, Brazilian grape tree.


Descrição botânica

A jabuticabeira é uma árvore perene, de porte geralmente pequeno a médio (2–10 m em cultivo, podendo atingir maiores alturas em condições naturais), de copa densa e tronco relativamente liso. As folhas são simples, opostas, coriáceas, de coloração verde-brilhante, com nervura central pouco saliente. A espécie é notável pela caulifloria: as flores e frutos nascem diretamente sobre o tronco e ramos grossos, em estróbilos florais discretos que se tornam os frutos globosos. As flores, pequenas e brancas, dão origem a bagas de casca espessa (epicárpio) e polpa branca, suculenta e perfumada. As raízes são do tipo pivotante, adaptadas a solos bem drenados; o sistema radicular permite resistência moderada a seca, mas a planta prefere solos férteis e umidade adequada. A fenologia varia por região: florescimento e frutificação podem ocorrer uma ou mais vezes ao ano, com picos sazonais dependendo do cultivar e clima (em muitos lugares a colheita principal ocorre no outono/inverno). 


Região de origem e ocorrência no Brasil

A jabuticabeira é nativa do Sudeste do Brasil, com registros históricos em Minas Gerais e estados vizinhos; hoje encontra-se amplamente cultivada e naturalizada em muitas regiões do país, especialmente em pomares domésticos, quintais e áreas de Mata Atlântica remanescente. A espécie também foi espalhada para outras regiões tropicais e subtropicais. 


Pigmentos (antocianinas): tipo, quantidade, uso e importância para a saúde

  • Tipo de pigmento: as cascas das jabuticabas acumulam antocianinas (grupo de flavonoides); compostos identificados incluem cianidina-3-glucosídeo e outros derivados glicosilados da cianidina e delfinidina, além de uma variedade de fenólicos e taninos. Essas moléculas conferem a coloração arroxeada-negra característica do fruto. 

  • Faixa de conteúdo: estudos reportam variações entre cultivares e métodos analíticos, com conteúdos de antocianinas na casca tipicamente entre ≈60 a >280 mg de cianidina-3-glucosídeo equivalente por 100 g de fruto (alguns trabalhos em farinhas/peels concentrados reportam valores ainda maiores — centenas a >1000 mg/100 g em preparações de casca seca). A variabilidade é alta entre variedades, estágio de maturação e método de extração.

  • Usos dos pigmentos: antocianinas são pigmentos funcionais utilizados em alimentos (corantes naturais), cosméticos e produtos nutracêuticos; a casca de jabuticaba tem sido transformada em farinhas, extratos e corantes naturais para aplicações alimentares e cosméticas. 

  • Importância para a saúde: antocianinas e outros fenólicos da jabuticaba exibem forte atividade antioxidante in vitro, além de efeitos antiinflamatórios, antimicrobianos e potenciais efeitos protetores sobre células hepáticas, metabolismo glicídico e até propriedades antitumorais observadas em estudos pré-clínicos. Esses efeitos sustentam o interesse nutracêutico dos frutos e de seus derivados. Contudo, muitos estudos são pré-clínicos ou in vitro; a biodisponibilidade e os efeitos em humanos dependem de dose e formulação. 


Usos medicinais (tradição e evidência)

  • Tradição popular: infusões e xaropes de jabuticaba são usados popularmente para tratar diarréias, inflamações da garganta e como tônico. Há usos tradicionais para problemas digestivos e na forma de xaropes e xarops caseiros. 

  • Evidência moderna: revisões e estudos apontam atividade antioxidante, antiinflamatória, antimicrobiana e citotóxica seletiva de extratos de casca e sementes; há também estudos sobre efeitos benéficos em marcadores metabólicos e potencial antitumoral em modelos experimentais. Ainda assim, indicações clínicas padronizadas para uso medicinal humano exigem ensaios clínicos mais robustos. 


Modo de usar e preparação (uso fitoterápico tradicional)

  • Infusão de casca: secar cascas, 1–2 g (ou 1 colher de sopa de casca picada) em 200–250 ml de água quente; infundir 5–10 minutos; coar e beber para uso adstringente/antidiarreico.

  • Xarope caseiro/extrato: cozinhar frutas com açúcar até reduzir e concentrar; usado tradicionalmente como tônico.

  • Extratos padronizados: em produção industrial, extratos de casca padronizados em antocianinas/compostos fenólicos são a forma farmacêutica mais controlada. SciELO+1


Indicações fitoterápicas (resumo)

  • Antioxidante e protetor celular (uso nutracêutico).

  • Adstringente e antidiarreico (uso popular).

  • Potencial anti-inflamatório e antimicrobiano (uso investigado).

  • Suporte metabólico (estudos sugerem efeitos em marcadores glicêmicos/hipolipemiantes em modelos experimentais). ScienceDirect+1


Receita extemporânea medicinal (caseira, tradicional)

Xarope concentrado de jabuticaba (uso como tônico/adstringente)

  • 1 kg de jabuticabas lavadas (frutas inteiras)

  • 500–800 g de açúcar orgânico (ajustar conforme preferência)

  • 500 ml de água
    Preparo: macere as frutas, ferva com água por 15–20 min em fogo baixo; coe separando o líquido; junte o açúcar ao líquido e cozinhe até atingir consistência de xarope; armazenar em frascos esterilizados. Dose: 1 colher de sopa diluída em água, 1–3x/dia, como tônico. (Uso tradicional; atenção a pessoas com restrição de açúcar). phcogrev.com


Usos como PANC e receita alimentar

  • Uso alimentar / PANC: frutos consumidos in natura; amplamente usados em sucos, geleias, vinhos, licores, sorvetes, e farinhas de casca. A casca (rica em fibras e antocianinas) é aproveitada industrialmente para farinhas e extratos funcionais. ScienceDirect+1

Receita — Geleia funcional de jabuticaba (caseira)

  • 1 kg de jabuticabas

  • 500–700 g de açúcar

  • Suco de 1 limão
    Preparo: cozinhar as jabuticabas com pouca água, passar por peneira para separar polpa e casca; juntar açúcar e limão; cozinhar até ponto; porcionar em potes. A geleia aproveita polpa e parte dos compostos da casca; ótima fonte de antioxidantes.


Bromatologia (componentes nutricionais e compostos bioativos)

Valores dependem de cultivar, maturação e se são analisados frutos inteiros ou casca concentrada. Abaixo, valores típicos / parâmetros de interesse encontrados em estudos (por 100 g de fruto fresco, valores aproximados):

  • Energia: ~50–80 kcal (fruto fresco).

  • Carboidratos (principalmente açúcares): 10–20 g.

  • Fibra dietética: 1–3 g (casca concentra muito mais fibra).

  • Vitamina C: valores relatados variam — alguns cultivares apresentam alto teor de vitamina C, até ≈50–160 mg/100 g em frutas selecionadas; variações grandes entre cultivares. 

  • Antocianinas (casca): comumente reportadas entre ≈60–300 mg c3g/100 g de fruto (em cascas ou expressando em cianidina-3-glucosídeo equivalente); preparações de casca seca / farinhas podem concentrar muito mais (centenas a >1000 mg/100 g, dependendo do método). PMC+1

  • Compostos fenólicos totais: altos (diversos estudos reportam elevada atividade fenólica). ScienceDirect

Observação: valores exatos variam fortemente por cultivar (p.ex. Sabará, Paulista, Grimal, Escarlate), estágio de maturação, condições de cultivo e método analítico; estudos recentes trazem faixas e médias que mostram potencial nutracêutico destacado. 


Possível toxicidade e interações medicamentosas

  • Toxicidade: fruto e casca são considerados seguros para consumo humano em quantidades alimentares normais. Não há relatos amplos de toxicidade da fruta madura em dietas convencionais. Estudos de extratos concentrados (sementes/cascas) demonstram atividade biológica que exige cautela em doses farmacológicas; portanto, extratos muito concentrados devem ser usados com supervisão. PMC+1

  • Interações: altas doses de polifenóis podem reduzir a absorção de ferro não heme; pessoas com anemia por deficiência de ferro devem considerar esse efeito. Como acontece com outros extratos ricos em polifenóis, podem haver interações teóricas com medicamentos que dependem de absorção intestinal; porém interações farmacológicas clinicamente relevantes são pouco documentadas e requerem mais estudos. ScienceDirect


Dicas de cultivo

  • Clima: tropical a subtropical; aprecia verões quentes e invernos amenos (tolerância limitada a geadas).

  • Solo: fértil, profundo, bem drenado, com boa matéria orgânica; pH levemente ácido a neutro.

  • Luminosidade: pleno sol a meia-sombra.

  • Plantio e manejo: propagação por sementes (germinabilidade rápida com material fresco) ou por estaquia/enchimento em viveiro; plantas jovens demandam irrigação regular; poda para manejo de copa e colheita facilitada. A jabuticabeira é de crescimento relativamente lento, com frutificação que começa alguns anos após o plantio (2–7 anos, conforme método de propagação e cultivar). 


Curiosidades

  • A jabuticaba é emblemática no Brasil: frutos que nascem no tronco atraem grande interesse visual e cultural; produtos locais (geleias, licores, vinhos, farinhas de casca) são tradicionais.

  • Pesquisas recentes avaliam reaproveitamento de resíduos de casca para extrair antocianinas e pectina, agregando valor e reduzindo desperdício. 


Bibliografia desta ficha (seleção das referências citadas)

  1. Mattos GN, et al. Anthocyanin Extraction from Jaboticaba Skin. Food Chemistry / PMC article, 2022. PMC

  2. Resende LM, et al. Characterization of jabuticaba peel flours and anthocyanin content. Food Chemistry / 2020. ScienceDirect

  3. Jornal JABB — Biochemical Characterization of Jabuticaba (Plinia cauliflora) varieties, 2024 (dados de antocianinas por variedade). sdiopr.s3.ap-south-1.amazonaws.com

  4. Bőcker R. Anthocyanin-rich jaboticaba fruit: Natural source of bioactive pigments. Review (2024). ScienceDirect

  5. Neves N. de Andrade et al. Identification and quantification of phenolic composition in jabuticaba (2021) — estudo comparativo de cultivares. ScienceDirect

  6. Sacchet C., et al. Antidepressant-Like and Antioxidant Effects of Plinia spp. PMC article, 2015. PMC

  7. Bueno TM, et al. Peel pretreatment effect and ultrasound-assisted extraction of phenolics from jabuticaba peel. Anais da ABC (2024). SciELO

  8. Silva JS, et al. Jabuticaba peel extracts in cosmetic/food applications. MDPI Cosmetics (2025). MDPI

  9. Review: Santos DT et al., Jabuticaba as a Source of Functional Pigments, Phcog Rev, 2009 — revisa propriedades das antocianinas e aplicações. phcogrev.com

  10. Missouri Botanical Garden / Plant Finder — Plinia cauliflora profile (descrição e distribuição). missouribotanicalgarden.org

Jaboticaba - Plinia cauliflora (Mart.) Kausel - Frutos pronto para consumo - Foto: José Carlos Bueno, Bueno Brandão-MG, setembro de 2025

Jaboticaba - Plinia cauliflora (Mart.) Kausel - Árvore em flor - Foto: José Carlos Bueno, Bueno Brandão-MG, setembro de 2025

Jaboticaba - Plinia cauliflora (Mart.) Kausel - Caule florido - Foto: José Carlos Bueno, Bueno Brandão-MG, setembro de 2025

Jaboticaba - Plinia cauliflora (Mart.) Kausel - Ramo e folhas, caule florido em segundo plano - Foto: José Carlos Bueno, Bueno Brandão-MG, setembro de 2025


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