sábado, 27 de setembro de 2025

Mulungu

 

🔬 Mulungu (Erythrina falcata): potencial fitoterápico e aplicações em saúde
Explore os aspectos botânicos, farmacológicos e ecológicos desta espécie nativa do Brasil, utilizada tradicionalmente como calmante natural. Pesquisas científicas destacam a presença de alcaloides eritrínicos com comprovada ação ansiolítica e sedativa, além de potenciais propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Saiba mais sobre seus usos medicinais, aplicações em paisagismo e recomposição florestal, bem como as diferenças em relação a outras espécies do gênero Erythrina.

Ficha técnica — Mulungu (Erythrina falcata Benth.)

1. Nome científico e classificação

  • Nome científico: Erythrina falcata Benth.

  • Classificador: George Bentham (Benth.).

  • Família: Fabaceae (subfamília Faboideae).

  • Gênero: Erythrina (≈ 100 espécies em regiões tropicais e subtropicais).

2. Nomes populares

Mulungu, corticeira-da-serra, sapatinho-de-judeu, suinã (variação regional). Em inglês: Brazilian coral tree / mulungu.


3. Descrição botânica

Erythrina falcata é uma árvore caducifólia a semi-caducifólia de porte médio a grande que pode atingir 10–20 m de altura em condições favoráveis. O tronco é robusto e frequentemente espinhoso nos ramos; a casca é relativamente grossa e facilmente destacável em lâminas — característica que favorece o uso tradicional da “casca”/entrecasca para fins medicinais. As folhas são compostas, pinnadas com 3 folíolos grandes (trinadas), lâminas coriáceas, superfície verde escura. As raízes formam um sistema pivô com ramificações laterais. A inflorescência é uma panícula racemosa de flores papilionáceas (como é típico das Fabaceae), grandes, bilaterais e geralmente de cor vermelho-alaranjada — atraentes para polinizadores. O fruto é uma vagem leguminosa contendo sementes aladas/ovoidais. Do ponto de vista reprodutivo, polinização é feita por insetos e aves; fenologia: brotação de folhas e floração geralmente ligadas a estações secas/úmidas conforme a região, com intensa floração em certas épocas do ano.


4. Região de origem e ocorrência no Brasil

  • Origem: continente sul-americano; espécies nativas da Mata Atlântica e florestas subtropicais do Brasil meridional / sudeste.

  • Distribuição no Brasil: encontrada no Sul, Sudeste e pontos de Mata Atlântica/ícones do Cerrado/áreas de transição; também cultivada como ornamental e para recomposição florestal em diversas regiões.


5. Usos medicinais (tradição e evidência)

  • Uso tradicional: na fitoterapia tradicional brasileira, a casca, flores e folhas do mulungu são usadas como calmantes, sedativos, ansiolíticos, analgésicos e antiespasmódicos; também há relatos populares de uso para insônia, agitação, dor e problemas nervosos.

  • Evidência científica: estudos farmacológicos identificaram alcaloides tetracíclicos (p.ex. erythravine, erythrinina, hydroxyerythravine) e outros alcaloides com atividade sobre o sistema nervoso central — demonstrando efeitos ansiolíticos e sedativos em modelos animais e in vitro. Pesquisas apontam potencial ansiolítico comparável a benzodiazepínicos em alguns modelos pré-clínicos, além de efeitos analgésicos e moduladores do sistema nervoso. Contudo, a evidência clínica em humanos é limitada, e a segurança/toxicidade precisa ser respeitada.


6. Modo de usar e preparação (tradição popular)

  • Infusão (chá) de casca ou folhas: 1–2 g (pequeno pedaço de casca ou 1 colher de chá de pó) em 150–250 mL de água quente; abafar 5–10 minutos; coar. Tomar 1 xícara à noite para efeito sedativo leve.

  • Tintura/extrato alcoólico: preparado comercialmente em extratos padronizados; dose conforme fabricante e orientação profissional.

  • Flores: em algumas regiões as flores são usadas em decocções ou infusões; porém atenção redobrada à dosagem.

Importante: os métodos e doses variam muito entre tradições; não use doses altas nem prolongadas sem supervisão médica/fitoterápica.


7. Indicações fitoterápicas (resumo)

  • Transtornos ansiosos leves (adjuvante).

  • Insônia de origem nervosa (uso noturno de curto prazo).

  • Espasmos musculares e dores de origem nervosa (relatos tradicionais).

  • Uso tópico: cataplasmas em pequenas inflamações (uso tradicional pontual).

(A utilização como substituto de psicotrópicos deve ser feita apenas sob orientação médica. Evidências humanas robustas ainda são insuficientes.)


8. Receita extemporânea medicinal (receita tradicional; apenas para referência)

Decocção doméstica para relaxamento (uso ocasional)

  • 1 colher de chá rasa de casca seca picada (≈ 1–2 g) ou 1 colher de chá de folhas secas.

  • 200–250 mL de água.
    Ferver 3–5 minutos, deixar em repouso 5–10 minutos, coar. Tomar apenas 1 xícara à noite. Não exceder doses; interromper se houver tontura, fraqueza muscular ou outros sinais adversos. Não usar com sedativos ou álcool.


9. Possível toxicidade e interações medicamentosas

  • Alcaloides de Erythrina têm ação farmacológica relevante: alguns compostos apresentam efeito curare-like (bloqueio neuromuscular em altas doses) e outros efeitos cardiovasculares. Relatos e estudos indicam risco de depressão respiratória, fraqueza muscular e interação aditiva com sedativos/benzodiazepínicos/álcool.

  • Contraindicações: gestantes, lactantes, crianças, pacientes sob terapia com sedativos, ansiolíticos, antidepressivos, anti-hipertensivos, anticoagulantes e quimioterápicos devem evitar o uso.

  • Efeitos adversos reportados: sonolência excessiva, fraqueza, tontura, redução da pressão arterial, náuseas, em casos extremos problemas respiratórios.

  • Aviso: uso contínuo ou em doses elevadas pode ser perigoso; atenção a qualidade e padronização do produto (casca/folha/extração).


10. Usos no paisagismo

  • Valor ornamental alto: floração vistosa (flores vermelhas/alaranjadas) e porte imponente fazem do mulungu uma excelente escolha para parques, praças e grandes jardins.

  • Atributos: fornece sombra, flores atraem aves e polinizadores; tronco e copa têm apelo estético sazonal (florada abundante).

  • Atenção no plantio urbano: ramos espinhosos (em algumas espécies), raízes podem ser volumosas — escolher distância adequada de estruturas.


11. Usos em recomposição florestal

  • Papel ecológico: espécies de Erythrina fixam nitrogênio por rizóbios → contribuem para a recuperação inicial de solos degradados e enriquecimento de nitrogênio na restauração. São úteis em consórcios para recuperação de áreas degradadas e corredores ecológicos.

  • Recomendação: prefira material genético local e plantas de viveiros certificados para garantir adaptação e evitar impactos genéticos.


12. Dicas de cultivo

  • Clima: tropical a subtropical; tolera verões quentes e períodos secos curtos.

  • Solo: prefere solos bem drenados, férteis; suporta solos médios.

  • Luz: pleno sol a meia-sombra — pleno sol favorece floração.

  • Propagação: por sementes (germinabilidade boa com sementes frescas) e por estaquia/estaquia semi-lenhosa (propagação vegetativa utilizada para clonagem de fenótipo). Estudos mostram alta taxa de enraizamento por estaquia quando manejada adequadamente.

  • Manejo: poda de formação; proteção de mudas contra herbivoria; adubação orgânica para melhor estabelecimento.


13. Curiosidades

  • O nome “mulungu” é de origem tupi e é aplicado a várias espécies de Erythrina no Brasil.

  • Além do uso medicinal, Erythrina tem valor cultural e paisagístico em várias regiões da América Latina.

  • Alguns estudos científicos confirmam efeitos ansiolíticos de alcaloides de Erythrina em modelos animais, tornando o gênero objeto de interesse farmacológico.


14. Comparação, semelhanças e diferenças com outras espécies do gênero Erythrina

  • Erythrina mulungu (às vezes tratado como espécie separada) vs E. falcata: nomes regionais podem confundir — várias espécies regionais (E. velutina, E. speciosa, E. crista-galli, E. mulungu) são chamadas de mulungu em diferentes áreas; morfologia (cor/forma das flores, espinhos, tamanho da folha) e composição alcaloídica variam entre espécies.

  • E. crista-galli — muito ornamental (flores vermelhas em inflorescências vistosas) e amplamente cultivada; comestibilidade de flores relatada para algumas espécies (flores cozidas em algumas culturas), enquanto Erythrina que produzem alcaloides com atividade neuromuscular exigem cautela.

  • E. velutina / E. mulungu (nome usado para E. mulungu em literatura) — ambas reportadas em estudos farmacológicos por efeitos ansiolíticos; composições químicas similares porém proporções de alcaloides diferem, influenciando potência e toxicidade.

  • Resumo prático: todas as espécies do gênero partilham a presença de alcaloides tetracíclicos; por isso não é seguro extrapolar dos usos etnobotânicos de uma espécie para outra sem confirmação botânica e química — usar identificação correta e material padronizado.


15. Bibliografia desta ficha

  1. Almeida EE, Vendruscolo G, Simões CMO. Caracterização farmacognóstica da espécie Erythrina falcata. Revista Brasileira de Farmacognosia (RBFar). 2010. — estudo farmacognóstico e registros etnobotânicos.

  2. Dantas MC, Marchioro M, et al. Central nervous system effects of crude extracts from Erythrina spp. (modelos pré-clínicos). Journal of Ethnopharmacology / literatura correlata. 2004. — estudos farmacológicos sobre efeitos no SNC.

  3. Useful Tropical Plants / The Ferns and Useful Plants database. Erythrina falcata — ficha de usos tradicionais, cultivo e características. (online resource) — acesso e consulta para informações de distribuição e usos.

  4. Plants of the World Online (Kew) — Erythrina falcata Benth. — confirmação taxonômica e distribuição.

  5. Rain-Tree / Tropical Plant Database — Erythrina (mulungu) — resumo de alcaloides e propriedades tradicionais.

  6. PFAF (Plants for a Future) — Erythrina crista-galli / Erythrina spp. — notas sobre usos alimentares das flores em algumas espécies e advertências tóxicas.

  7. Revisões recentes sobre o potencial farmacológico e toxicidade de espécies de Erythrina — (ex.: revisão em RSD Journal / artigos PMC sobre farmacologia e toxicidade do género Erythrina, 2018–2025).

  8. Dias, S. A., et al. Neuropharmacological and genotoxic evaluation of ethanol extract of Erythrina falcata leaves. Revista Brasileira de Farmacognosia, 23(2): 336–343, 2013. DOI: 10.1590/S0102-695X2013000200004 SciELO+1

  9. Susilawati, E., et al. Pharmacology activity, toxicity, and clinical trials of the genus Erythrina: A review. Frontiers in Pharmacology, 2023. DOI: 10.3389/fphar.2023.1281150 PMC

  10. Rambo, D. F., et al. The genus Erythrina L.: A review on its alkaloids. Phytotherapy Research, 2019. DOI: 10.1002/ptr.6321 Wiley Online Library

  11. Jiménez-Cabrera, T., Bautista, M., Velázquez-González, C., Jaramillo-Morales, O. A., Guerrero-Solano, J. A., Urrutia-Hernández, T. A., & De la O-Arciniega, M. Promising Antioxidant Activity of Erythrina Genus: An Alternative Treatment for Inflammatory Pain? International Journal of Molecular Sciences, 2021, 22(1): 248. DOI: 10.3390/ijms22010248 MDPI

  12. Adetunji, T. L., Amarachi Acho, M., Samuel, V. O., Ohoro, C. R., Ramulondi, M. Erythrina velutina Willd.: A review of its traditional uses, phytochemistry, pharmacology, and toxicology. Journal of Ethnopharmacology, 2024. DOI: 10.1016/j.jep.2023.117273 ResearchGate

Mulungu - Erythrina falcata Benth. - Aspécto da árvore - Foto: José Carlos Bueno - Inconfidentes-MG- 09/2025

Mulungu - Erythrina falcata Benth. - Inflorescência - Foto: José Carlos Bueno - Inconfidentes-MG- 09/2025

Mulungu - Erythrina falcata Benth. - Inflorescência - Foto: José Carlos Bueno - Inconfidentes-MG- 09/2025

Mulungu - Erythrina falcata Benth. - Ramo florido- Foto: José Carlos Bueno - Inconfidentes-MG- 09/2025


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