sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Camomila (Matricaria recutita L): usos medicinais, cultivo e constituintes químicos da planta calmante mais famosa do mundo

Descubra por que a Camomila (Matricaria recutita L.) é uma das plantas medicinais mais estudadas do mundo. Conheça suas propriedades calmantes, constituintes químicos, aplicações na fitoterapia e até sua interpretação na Medicina Tradicional Chinesa.


Nome científico: Matricaria recutita L. (sin.: Chamomilla recutita (L.) Rauschert). [1]
Classificador / Autor: Linnaeus, 1753. [1]
Família botânica: Asteraceae (tribo Anthemideae). [1]

Nomes populares: Camomila, camomila-alemã, maçanilha, camomila-vulgar. [2]


Descrição botânica

A camomila é uma herbácea anual de porte baixo a médio (20–50 cm), com caule ereto, frequentemente ramificado. As folhas são alternas e pinnatissectas (divididas em folíolos finos). A inflorescência é um capítulo terminal: centro de flores amarelas (disco) e flores liguladas brancas (“pétalas”). Raiz pivotante com ramificações. Fenologia: germina na primavera, floresce no final da primavera/principio do verão; prefere dias longos e solos bem drenados. [2][3]


Região de origem e ocorrência no Brasil

Origem mediterrânea/ européia; naturalizada e cultivada mundialmente, inclusive no Brasil, onde aparece em hortas, viveiros e cultivos comerciais de plantas medicinais. [2]


Usos medicinais

Indicada tradicionalmente como relaxante suave, antiespasmódica e digestiva (chá das flores para cólicas, distúrbios digestivos, ansiedade leve e insônia). Revisões e estudos suportam propriedades anti-inflamatórias, espasmolíticas e ansiolíticas em modelos experimentais e alguns ensaios clínicos leves. [4][5]


Modo de usar e preparação

  • Infusão: 1 colher de chá (≈1–2 g) de flores secas por 150–200 mL de água quente; infundir 5–10 min, tampar para preservar voláteis. Tomar 1–3 xícaras/dia.

  • Uso externo: compressas ou banhos com infusão para pele irritada, olhos cansados.

  • Extratos padronizados e tinturas: seguir instruções terapêuticas e orientação profissional. [5]


Indicações fitoterápicas


Constituintes químicos principais

Flores ricas em óleo essencial (α-bisabolol, óxidos de bisabolol, chamazuleno — quando obtido por hidrodestilação em condições que formem chamazuleno), terpenos, flavonoides (apigenina, luteolina, quercetina e glicósidos), ácidos fenólicos (ácido cafeico, clorogênico), coumarinas (herniarina, umbeliferona) e polisacáridos. [6][7]


Uso e constituintes das folhas/flores (resumo funcional)

As flores (parte medicinal usuais) concentram o óleo essencial e flavonoides responsáveis por efeitos calmantes, antiespasmódicos e anti-inflamatórios. A apigenina e o óleo essencial são frequentemente citados como marcadores de atividade. [6][7]


Aspectos segundo a Medicina Tradicional Chinesa (MTC)

  • Natureza (Qi): levemente fria.

  • Sabor (Wei): amargo e doce suave.

  • Meridianos associados: Fígado (Gan), Estômago (Wei), Coração (Shen).

  • Ações: acalmar o espírito, harmonizar o Estômago, dispersar calor leve do Fígado, aliviar tensão e irritabilidade. Contraindicação: uso excessivo em indivíduos com deficiência de Yang do Baço/Estômago (padrões frios). [8]


Dicas de cultivo

  • Clima: temperado a subtropical; prefere pleno sol a meia-sombra.

  • Solo: leve, bem drenado, pH neutro a levemente alcalino.

  • Semeadura em viveiro ou direto; colher as flores abertas pela manhã e secar rápido para preservar óleo essencial. [2][9]


Curiosidades

  • Nome grego chamai-melon = “maçã da terra” (cheiro das flores lembrando maçã).

  • Diferentes quimotipos (variações na composição do óleo) são cultivados para uso farmacêutico vs. cosmético vs. chá. [6]


Referências (numeradas)

  1. Nome e taxonomia clássica: Linnaeus, Species Plantarum, 1753 (autoridade taxonômica).

  2. Fontes botânicas e fitoterápicas gerais sobre Matricaria recutita (manuais de plantas medicinais e flora).

  3. Descrições morfológicas e fenologia: guias de cultivo e manuais hortícolas.

  4. Revisão: “A review of the bioactivity and potential health benefits of chamomile tea (Matricaria recutita L.)”, Phytotherapy Research (revisão clássica sobre usos e evidências).

  5. Estudos clínicos e monografias fitoterápicas: monografias farmacopéias e revisões (ex.: ESCOP, monografias nacionais).

  6. Fitoquímica: artigos e revisões sobre óleo essencial (α-bisabolol, chamazuleno) e flavonoides (apigenina).

  7. Estudos sobre atividade antioxidante e hepatoprotetora em modelos animais/in vitro.

  8. Interpretação energética para MTC: síntese baseada em correspondência de ações farmacológicas com conceitos de MTC (harmonização do Fígado, acalmar Shen).

  9. Guias de cultivo e colheita para plantas medicinais (hortas, viveiros).


Camomila - (Matricaria recutita L.) - Planta florida - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 02/2019
Camomila - (Matricaria recutita L.) - Inflorescências (comparação de proporção) - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 02/2019


 

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Canela-de-velho (Miconia albicans (Sw.) Triana): propriedades farmacológicas e potenciais terapêuticos de uma planta do Cerrado

Miconia albicans (Sw.) Triana
A Canela-de-velho (Miconia albicans) é uma planta medicinal do Cerrado com reconhecida ação anti-inflamatória e antioxidante. Saiba como usar, cultivar e aproveitar seus benefícios para artrite, artrose e dores nas articulações, com base em estudos científicos e saberes tradicionais.

🔹 Classificação botânica

  • Nome científico: Miconia albicans (Sw.) Triana

  • Autor/classificador: (Swartz) Triana

  • Família botânica: Melastomataceae

  • Classificação taxonômica atual:

    • Reino: Plantae

    • Divisão: Magnoliophyta

    • Classe: Magnoliopsida

    • Ordem: Myrtales

    • Família: Melastomataceae

    • Gênero: Miconia

    • Espécie: M. albicans


🌿 Nomes populares

Canela-de-velho, folha-de-velho, canela-buraqueira, quaresmeira-do-campo, orvalhinha.


🌱 Descrição botânica

A Miconia albicans é um arbusto perene de pequeno a médio porte, atingindo de 1 a 3 metros de altura, com caule lenhoso e ramificado. Suas folhas são simples, opostas, grandes e ovaladas, com textura aveludada e coloração verde-acinzentada na face superior e esbranquiçada na inferior devido à presença de tricomas densos.
O sistema radicular é fasciculado, bem adaptado a solos secos e pedregosos do Cerrado. A inflorescência é do tipo panícula terminal, com pequenas flores brancas ou rosadas, que se desenvolvem principalmente durante o período chuvoso (de outubro a março). O fruto é uma baga arredondada, de coloração arroxeada quando madura, atraindo aves e pequenos mamíferos.

A planta é melitófila e ornitófila, com importante papel ecológico na regeneração natural de áreas degradadas do Cerrado e da Caatinga.


📍 Distribuição e ocorrência

Espécie nativa do Brasil, amplamente distribuída em biomas de Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica, ocorrendo desde o Piauí até o Paraná. É mais comum em cerrados, campos rupestres e bordas de matas, em solos ácidos, arenosos e bem drenados.
Também ocorre em outros países da América do Sul, como Bolívia, Paraguai e Argentina [1].


💊 Usos medicinais e indicações fitoterápicas

A canela-de-velho é uma das plantas mais utilizadas na medicina popular do Nordeste e Centro-Oeste do Brasil, sendo empregada no tratamento de dores articulares, artrite, artrose, reumatismo, inflamações e distúrbios hepáticos [2,3].

Estudos farmacológicos indicam que os extratos etanólicos das folhas apresentam atividade anti-inflamatória, antioxidante, analgésica e antimicrobiana [4,5]. Os compostos fenólicos presentes reduzem a ação de radicais livres, atuando na proteção tecidual e alívio da dor [6].


🧪 Constituintes químicos das folhas

As folhas contêm diversos metabólitos secundários de interesse medicinal:

Esses compostos justificam suas ações anti-inflamatórias, antioxidantes e hepatoprotetoras, com destaque para a redução da dor e da rigidez articular [5,7].


🍵 Modo de uso e preparação tradicional

O uso popular mais difundido é na forma de chá (infusão ou decocção) das folhas:

  • Infusão: 1 a 2 colheres de sopa de folhas secas picadas em 1 litro de água quente. Tampar e deixar em infusão por 10 minutos. Tomar de 2 a 3 xícaras ao dia.

  • Decocção: Ferver 1 litro de água com 2 colheres de folhas por 5 minutos; coar e consumir morno.

Também é utilizada externamente, em banhos e compressas sobre articulações doloridas.

⚠️ O uso prolongado ou em altas doses deve ser evitado sem orientação profissional, pois há relatos de variações químicas entre populações da planta que podem alterar sua segurança [6].


🌾 Dicas de cultivo

  • Clima: tropical a subtropical; resistente à seca.

  • Solo: prefere solos bem drenados e arenosos, com pH levemente ácido.

  • Luminosidade: pleno sol.

  • Propagação: por sementes ou estacas semi-lenhosas.

  • Manutenção: podas leves anuais estimulam o brotamento e a floração.
    É uma espécie rústica, de fácil cultivo e ideal para paisagismo ecológico em áreas degradadas.


🌺 Curiosidades

  • O nome “canela-de-velho” vem do aspecto envelhecido e prateado das folhas, que lembram a pele enrugada de um idoso.

  • É considerada uma PANC medicinal, por seu potencial como alimento funcional em sucos e extratos naturais [7].

  • Na tradição popular, acredita-se que “renova as articulações” e “traz leveza ao corpo”.

  • A espécie é estudada por universidades federais (como UFS, UFG e UFBA), com comprovação de suas propriedades anti-inflamatórias [3,5].


📚 Referências

  1. Goldenberg, R., et al. Miconia (Melastomataceae) diversity and distribution in South America. Systematic Botany, 2018.

  2. Almeida, S. P., et al. Plantas do Cerrado: uso e conservação. Embrapa, Brasília, 1998.

  3. Lorenzi, H. & Matos, F. J. A. Plantas Medicinais no Brasil: nativas e exóticas. Instituto Plantarum, Nova Odessa, 2020.

  4. Santos, F. O. et al. Anti-inflammatory potential of Miconia albicans leaf extract. Journal of Ethnopharmacology, 2017.

  5. Oliveira, A. R. et al. Phytochemical profile and biological activity of Miconia albicans. Brazilian Journal of Pharmacognosy, 2022.

  6. Silva, M. C. et al. Toxicological and pharmacological evaluation of Miconia albicans extracts. Phytomedicine, 2019.

  7. Kinupp, V. F. & Lorenzi, H. Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil. Instituto Plantarum, Nova Odessa, 2014.


Miconia albicans (Sw.) Triana
Canela-de-velho (Miconia albicans (Sw.) Triana) - Aspecto da planta em flutificação - Foto: José Carlos Bueno - Ouro Fino-MG 07/2014

Miconia albicans (Sw.) Triana
Canela-de-velho (Miconia albicans (Sw.) Triana) - Aspecto da planta em flutificação - Foto: José Carlos Bueno - Ouro Fino-MG 07/2014


Miconia albicans (Sw.) Triana
Canela-de-velho (Miconia albicans (Sw.) Triana) - Aspecto da planta em flutificação - Foto: José Carlos Bueno - Ouro Fino-MG 07/2014

 

sábado, 18 de outubro de 2025

Alcachofra (Cynara scolymus L.): tesouro mediterrâneo de sabor e saúde

 

Cynara scolymus L.
Mais do que um alimento refinado, a Alcachofra (Cynara scolymus L.) é uma poderosa planta medicinal. Rica em cinarina e compostos antioxidantes, auxilia o fígado, melhora a digestão e fortalece o corpo. Explore neste artigo como essa flor comestível une o prazer da mesa ao cuidado natural com a saúde.

Ficha técnica — Alcachofra

Nome científico: Cynara scolymus L. (sin.: Cynara cardunculus var. scolymus — taxonomia com variações segundo autoridades). powo.science.kew.org+1

Classificador / Autor da espécie: Linnaeus, 1753 (L.). theplantlist.org

Classificação mais recente (síntese): Reino Plantae; Angiospermas; Asterales; Família Asteraceae (Compositae); Gênero Cynara; Espécie Cynara scolymus L. (algumas bases tratam como sinônimo de Cynara cardunculus subsp. cardunculus / var. scolymus — ver variações taxonômicas). powo.science.kew.org+1

Família botânica: Asteraceae. theplantlist.org

Nomes populares: Alcachofra, alcachofra-comum, artichoke (en), cardo, alcachofra-do-jardim; em Portugal/Itália/França há nomes locais (artichoke, artichaut, carciofo). theplantlist.org


Descrição botânica 

Planta perene, frequentemente cultivada como herbácea robusta formando rosetas basais de folhas grandes e espatuladas. As folhas são profundamente lobadas ou pinatissectas, coriáceas a subcoriáceas, ásperas ao toque, com dimorfismo entre folhas basais maiores e folhas caulinares progressivamente menores. O caule costuma ser curto em cultivares para consumo; em plantas que florescem com maior vigor surgem hastes florais eretas. A “cabeça” que consumimos é, na verdade, a inflorescência imatura — um capítulo composto denso protegido por brácteas grandes e carnudas; quando a inflorescência abre, mostra um grande capítulo de flores tubulosas (frequentemente arroxeadas em variedades selvagens/cardoon). As raízes são fasciculadas, de hábito perene; o porte varia conforme cultivar, tipicamente entre 0,5–1,5 m, podendo atingir até ~2 m em condições favoráveis. A inflorescência é do tipo capítulo (capítulo composto típico das Asteraceae) com brácteas que formam a “cabeça” comestível; flores efetivas são numerosas e tornam-se pilosas/filiformes no amadurecimento. Fenologia: em clima temperado/mediterrâneo as inflorescências se desenvolvem na primavera-verão; em cultivos tropicais/subtropicais o ciclo depende da cultivar e do manejo, sendo comum a produção contínua de cabeças em estações favoráveis. www.reflora.jbrj.gov.br+1


Região de origem e ocorrência no Brasil

Origem: Região do Mediterrâneo — domesticação antiga a partir de cardos silvestres (Cynara spp.). powo.science.kew.org+1
Onde ocorre no Brasil: Introduzida e cultivada em várias regiões (produzida comercialmente no Sul e Sudeste e em hortas em outras regiões); registros de ocorrência e cultivo constam em bancos de dados nacionais (Flora do Brasil / Reflora). www.reflora.jbrj.gov.br


Usos alimentares (PANC)

Embora não seja nativa do Brasil, a alcachofra é consumida como hortaliça e é reconhecida por projetos e publicações de PANC (conceito amplo no Brasil: plantas comestíveis pouco usadas regionalmente; algumas referências à alcachofra aparecem em materiais sobre hortaliças e PANC, sobretudo na promoção da diversidade alimentar). As partes comestíveis principais são as inflorescências imaturas: brácteas externas (cozidas) e o “coração” (parte interna tenra) — também se consomem corações em conserva, talos descascados e brotos em preparações culinárias (saladas, massas, risotos, recheios). Fonte de fibras, inulina e minerais; baixo valor energético e alto valor de compostos bioativos. Horto Didático+1


Usos medicinais (tradicionais e apoiados por revisão científica)

Uso tradicional e fitoterápico: extratos das folhas são usados para distúrbios digestivos (dispepsia, sensação de estômago cheio, flatulência) e para suporte da função hepatobiliar (colerético/colagogo tradicional). Revisões recentes e monografias regulatórias reconhecem propriedades digestivas e ação sobre perfil lipídico (hipocolesterolêmico) atribuídas a compostos fenólicos, flavonoides e cinarina presente nas folhas. A EMA/Comitê HMPC emitiu monografia sobre Cynara folium (folhas) para uso tradicional em distúrbios digestivos; estudos clínicos e pré-clínicos documentam atividade antioxidante, hepatoprotetora e efeitos favoráveis sobre lipídios, embora existam variações entre preparações e necessidade de padronização. European Medicines Agency (EMA)+2fitoterapia.net+2


Conteúdo químico / constituintes das folhas

Folhas ricas em compostos fenólicos (ácidos clorogênicos, ácido cafeico), esteróis, flavonoides (luteolina, apigenina), derivado fenólico característico cinarina (3,5-dicafeoilquínico — frequentemente associada a efeitos coleréticos/biliários), inulina (carboidrato/frutano), e outros compostos bioativos como sesquiterpenos e taninos. A composição varia com a cultivar, estádio fenológico e método de extração. PMC+1


Modo de usar e preparações (alimentares e fitoterápicas)

Alimentar: cozinhar as cabeças inteiras em água fervente com sal e limão até as brácteas se soltarem; retirar as folhas externas e raspar o “fuzzy” até o coração; corações podem ser grelhados, salteados, em risotos, massas ou conservados em azeite/vinagre. Também se usam talos descascados e folhas tenras em refogados ou saladas quando apropriado. Receitas populares (ex.: massa com corações de alcachofra; salada de corações em conserva; alcachofra recheada). Receitas+1

Fitoterápico (folhas): infusão (chá) ou extratos secos/extratos fluidos padronizados (comercialmente há extratos secos e tinturas). Para uso tradicional: infusão de folhas secas para alívio de sintomas digestivos; doses e formulações variam por monografias — por exemplo a monografia da EMA descreve doses tradicionalmente utilizadas e formas (chá, extrato seco padronizado). A utilização deve respeitar orientações de segurança; evitar em pessoas com obstrução biliar grave; uso em adolescentes/adultos conforme monografia (ver seção de segurança). fitoterapia.net+1


Indicações fitoterápicas (síntese prática)

  • Transtornos digestivos funcionais (dispepsia, sensação de plenitude pós-prandial, flatulência) — uso tradicional/monografado. fitoterapia.net

  • Apoio à função hepatobiliar (uso tradicional e evidências pré-clínicas/clínicas sugestivas de efeito colerético/colagogo e proteção hepática). PMC

  • Efeitos hipolipemiantes modestos observados em alguns estudos (redução de colesterol/triglicerídeos), porém variabilidade entre estudos exige cautela. PMC

Observação de segurança: produtos derivados das folhas são geralmente considerados seguros quando usados conforme indicações; contudo, contraindica-se em obstrução biliar total; gestantes e lactantes devem consultar profissional. Reações adversas raras incluem desconforto digestivo; possíveis interações medicamentosas com fármacos que afetam bile/metabolismo hepático. Seguir monografias e normas regulamentares. European Medicines Agency (EMA)+1


Uso e constituintes das folhas (resumo funcional)

As folhas são a parte de maior uso medicinal — extraídas para obter cinarina, ácidos fenólicos e flavonoides. Esses compostos explicam o efeito colerético/colagogo (favorecem secreção biliar), atividade antioxidante e contribuem para efeitos sobre perfil lipídico e proteção hepática observados em estudos experimentais e alguns ensaios clínicos. Padronização do extrato (por exemplo conteúdo em cinarina ou fenóis totais) é importante para eficácia comparável. PMC+1


Receita culinária (como PANC — exemplo prático)

Massa com corações de alcachofra e tomate-cereja (rende 3–4 porções)
Ingredientes: 300 g de massa (penne ou fusilli), 6 corações de alcachofra em conserva (ou frescos pré-cozidos) cortados em quartos, 200 g tomates-cereja cortados ao meio, 1 cebola pequena picada, 2 dentes de alho picados, 1/2 xícara de azeite, 1/2 copo vinho branco (opcional), sal e pimenta a gosto, queijo parmesão ralado e manjericão para finalizar.
Modo: cozinhe a massa al dente. Enquanto isso, refogue cebola e alho no azeite, junte os corações de alcachofra e doure levemente; adicione o vinho e deixe evaporar; acrescente os tomates e cozinhe 2–3 min; incorpore a massa escorrida e acerte o sal. Finalize com parmesão e manjericão. (Adaptado de receitas culinárias brasileiras/portais gastronômicos). Receitas+1


Bromatologia (valores nutricionais e propriedades alimentares — resumo)

  • Baixo valor energético, fonte de fibras (incluindo inulina — prebiótico), vitaminas (folato, algumas vitaminas do complexo B), minerais (ferro, potássio, magnésio) e compostos fenólicos antioxidantes. A inulina torna a alcachofra interessante para controle glicêmico e microbiota intestinal. Valores variam por cultivar e preparo (fresco vs. enlatado/em conserva). Horto Didático+1 

🧪 Tabela Bromatológica da Alcachofra (Cynara scolymus L.) – por 100 g (parte comestível cozida)

ComponenteUnidadeQuantidade MédiaObservações / Relevância Nutricional
Energiakcal47Baixo valor energético
Águag84,9Elevado teor de umidade
Proteínasg3,3Fonte vegetal relevante de aminoácidos
Lipídios totaisg0,2Praticamente isenta de gordura
Carboidratos totaisg10,5Inclui frutanos (inulina) de ação prebiótica
Fibras alimentaresg5,4Alta; favorece função intestinal
Cinzas (minerais totais)g0,9Indica bom aporte mineral
Cálcio (Ca)mg44Importante para ossos e metabolismo celular
Ferro (Fe)mg1,3Contribui na formação de hemoglobina
Magnésio (Mg)mg60Essencial para enzimas e sistema nervoso
Fósforo (P)mg73Atua em ossos e metabolismo energético
Potássio (K)mg370Alta concentração; efeito diurético e regulador de pressão
Sódio (Na)mg64Naturalmente presente; baixo teor comparado a alimentos processados
Zinco (Zn)mg0,4Cofator enzimático e antioxidante
Vitamina C (ácido ascórbico)mg11,7Antioxidante natural
Vitamina B1 (Tiamina)mg0,05Essencial ao metabolismo energético
Vitamina B2 (Riboflavina)mg0,09Participa na oxidação celular
Vitamina B3 (Niacina)mg1,1Auxilia metabolismo de lipídios e glicídios
Vitamina B6 (Piridoxina)mg0,13Participa na síntese de neurotransmissores
Folato (Vitamina B9)µg68Importante para gestantes e formação celular
Vitamina A (RAE)µg13Presente em pequenas quantidades
Inulina (frutano)g2,0 – 4,0Fibra funcional com efeito prebiótico
Compostos fenólicos totaismg GAE/100g60 – 120Flavonoides (luteolina, apigenina) e cinarina — antioxidantes
Cinarina (ácido dicafeoilquínico)mg/100g15 – 30Marcador de atividade colerética e antioxidante

🧬 Resumo Nutricional e Funcional

  • Rica em fibras e inulina, melhora o trânsito intestinal e atua como prebiótico.

  • Baixo índice glicêmico, indicada em dietas para controle de glicemia.

  • Fonte de potássio, magnésio e folato, importantes na saúde cardiovascular e neural.

  • Presença de cinarina e flavonoides confere ação antioxidante, colerética e hepatoprotetora.


Dicas de cultivo (práticas essenciais)

  • Solo: profundo, bem drenado e rico em matéria orgânica; pH neutro a levemente alcalino.

  • Clima: prefere clima temperado-mediterrâneo; em regiões tropicais cultivar em épocas mais amenas ou escolher cultivares adaptadas.

  • Irrigação: regular, sem encharcamento.

  • Propagação: por mudas de estacas, divisão de touceiras, ou por sementes (cultivares comerciais mais frequentemente por mudas para uniformidade).

  • Espaçamento: depende da cultivar, geralmente 60–90 cm entre plantas em linhas.

  • Colheita: colher cabeças imaturas antes da abertura das flores; manejo de fertilização e poda pode estimular produção. www.reflora.jbrj.gov.br+1


Curiosidades

  • A “alcachofra” que comemos é a inflorescência imatura; se deixada florir transforma-se numa bela flor tipo “thistle” (com pétalas tubulares arroxeadas). www.reflora.jbrj.gov.br

  • Espécies do gênero Cynara (ex.: cardoon) foram utilizadas historicamente também como coagulantes no preparo de queijos rurais — ligação etnobotânica interessante. colplanta.org


🌓 Aspectos segundo a Medicina Tradicional Chinesa (MTC)

Na visão da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), a alcachofra (Cynara scolymus L.) é uma planta que atua predominantemente sobre os meridianos do Fígado (Gan) e da Vesícula Biliar (Dan), com efeitos secundários sobre o Baço-Pâncreas (Pi) e o Estômago (Wei). Seu uso tradicional e farmacológico demonstra grande correspondência com os princípios terapêuticos da MTC para drenar o Calor e a Umidade do Fígado, favorecer o fluxo de Qi hepático e promover a desintoxicação.

🌿 Natureza (Qi) e Sabor (Wei)

  • Natureza: ligeiramente fria

  • Sabor: amargo e doce suave

  • Polaridade: Yin
    Essas qualidades conferem à alcachofra a capacidade de eliminar o calor úmido, refrescar o sangue, harmonizar o fígado e tonificar levemente o Baço, quando usada em quantidades equilibradas.


⚖️ Ações energéticas na MTC

  1. Drena o Calor e a Umidade do Fígado e Vesícula Biliar
    → Indicada em padrões de Umidade-Calor com sintomas como sensação de peso, amargor na boca, distensão abdominal, náuseas e digestão lenta.

  2. Favorece o fluxo livre do Qi do Fígado
    → Auxilia em quadros de estagnação hepática relacionada a tensão, irritabilidade e distúrbios digestivos funcionais.

  3. Promove a eliminação de toxinas e calor interno
    → Atua na purificação do organismo, favorecendo processos de detoxificação hepática e cutânea.

  4. Regula a digestão e reduz acúmulo de Umidade e Mucosidade
    → Útil em casos de digestão pesada, distensão abdominal pós-prandial e hiperlipidemia.


🩺 Principais indicações energéticas

  • Estagnação de Qi do Fígado (Gan Qi Yu Jie)

  • Calor e Umidade no Fígado e Vesícula Biliar (Gan Dan Shi Re)

  • Plenitude abdominal e má digestão associadas a disfunção do Baço (Pi Qi Xu)

  • Calor no Sangue e toxinas internas (Re Du Nei Sheng)

  • Náuseas, cefaleia e amargor bucal por disfunção hepatobiliar

  • Hiperlipidemia e distúrbios metabólicos por acúmulo de Umidade


💧 Formas de uso segundo a MTC

  • Decocção das folhas secas: para purificar o Fígado, aliviar distensão e estimular o metabolismo hepático.

  • Extrato ou tintura: para promover drenagem da Vesícula Biliar e tonificar o Fígado em disfunções metabólicas leves.

  • Uso alimentar (cozida ou em infusão): como planta de caráter preventivo, equilibrando a digestão e fortalecendo o Baço.


🪶 Cuidados e contraindicações

Devido à sua natureza fria e sabor amargo, o uso prolongado ou excessivo da alcachofra pode enfraquecer o Baço e causar frio digestivo em pessoas com deficiência de Yang do Baço e Estômago, caracterizada por fezes amolecidas, frio abdominal e fadiga pós-refeição.
Nesses casos, recomenda-se associar a plantas de natureza morna, como gengibre (Zingiber officinale) ou hortelã (Mentha haplocalyx).


🌸 Resumo energético

AspectoCaracterística
Natureza (Qi)Fria
Sabor (Wei)Amargo e levemente doce
PolaridadeYin
Meridianos associadosFígado (Gan), Vesícula Biliar (Dan), Baço (Pi), Estômago (Wei)
Ações principaisElimina Calor e Umidade, move o Qi do Fígado, desintoxica, harmoniza a digestão
Indicações energéticasCalor-Umidade hepático, estagnação de Qi, disfunção hepatobiliar
ContraindicaçõesDeficiência de Yang do Baço e Estômago, frio digestivo

Citações confirmadas (como planta medicinal e como PANC) — autor, local e data (links numerados no final)

  1. European Medicines Agency — European Union herbal monograph on Cynara cardunculus L. (syn. Cynara scolymus L.), folium. HMPC, adoção 27 Mar 2018; compilação/revisão final 25 Sep 2018. (Monografia sobre uso medicinal tradicional das folhas). fitoterapia.net+1

  2. Porro C. et al., Functional and Therapeutic Potential of Cynara scolymus — revisão (PMC article), 2024 — revisão científica recente sobre compostos e potenciais terapêuticos (antioxidante, hepato-protetor, efeitos sobre lipídios). PMC

  3. Feiden T. et al., Bioactive Compounds from Artichoke and Application — revisão 2023 (PMC), aborda flavonoides, cinarina e aplicações industriais/alimentares. PMC

  4. Reflora / Flora do Brasil (Jardim Botânico do Rio de Janeiro) — ficha taxonômica e ocorrência no Brasil (Flora e Funga do Brasil). (Gutiérrez & Kilipper, dados Flora do Brasil 2020). www.reflora.jbrj.gov.br

  5. Embrapa / publicações sobre PANC e material de divulgação (ex.: Echer et al., 2020 — documento sobre PANC e sistemas agroecológicos) e guias brasileiros de PANC (Kinupp & Lorenzi, Plantas Alimentícias Não Convencionais no Brasil — referência de identificação e uso como PANC). (Documentação/guia brasileiros sobre PANC). Alice+1



Alcachofra
Alcachofra - Cynara scolymus L. - Detalhe da planta com inflorescência imatura - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 20‎ de ‎setembro‎ de ‎2019


Cynara scolymus L.
Alcachofra - Cynara scolymus L. - Inflorescência colhida para consumo - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 20‎ de ‎setembro‎ de ‎2019

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