quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Chicória-do-Pará (Eryngium foetidum L.): aroma amazônico, planta medicinal e PANC

A chicória-do-Pará (Eryngium foetidum) é uma planta aromática, medicinal e PANC, muito presente na culinária amazônica. Suas folhas intensamente perfumadas temperam pratos tradicionais como tacacá e pato no tucupi, além de auxiliarem a digestão e o bem-estar gastrointestinal. Fácil de cultivar, resistente e cheia de história, essa planta conecta saberes ancestrais, alimentação funcional e cultura regional. 🌿🍲



Identificação botânica

  • Nome científico: Eryngium foetidum L.

  • Sinonímia botânica: Eryngium antihystericum Rottb.

  • Família botânica: Apiaceae


Classificação botânica atual (APG IV – 2016)

  • Reino: Plantae

  • Clado: Angiosperms

  • Clado: Eudicots

  • Ordem: Apiales

  • Família: Apiaceae

  • Gênero: Eryngium

  • Espécie: Eryngium foetidum


Nomes populares

Chicória-do-Pará, chicória-amazônica, coentro-bravo, coentro-largo, culantro, chicória-da-Amazônia.


Descrição botânica

Planta herbácea perene, de porte baixo, formando touceiras densas. Apresenta sistema radicular fasciculado e superficial. As folhas são simples, alongadas, lanceoladas, de coloração verde-escura, com margens espinhosas e nervura central bem marcada. A textura é coriácea e o aroma intenso, semelhante ao coentro (Coriandrum sativum), porém mais persistente. A inflorescência é do tipo capítulo, pequena, envolta por brácteas rígidas e espinhosas, de coloração esverdeada a esbranquiçada. A floração ocorre principalmente em climas quentes e úmidos, com produção de sementes pequenas e secas.


Origem e distribuição no Brasil

Espécie nativa da América Tropical, com ampla ocorrência na Amazônia, Caribe, América Central e norte da América do Sul. No Brasil, é muito comum na Região Norte (especialmente Pará e Amazonas) e Nordeste, sendo cultivada em quintais, hortas urbanas, roçados e sistemas agroecológicos.


Variedades e intensidade aromática (picância sensorial)

Embora não possua picância como as pimentas, a chicória-do-Pará apresenta intensidade aromática elevada, classificada como:

  • Aroma: muito forte

  • Sabor: levemente picante e amargo-aromático
    Essa intensidade faz com que pequenas quantidades sejam suficientes para temperar pratos.


Usos medicinais e indicações fitoterápicas

Na medicina tradicional, a chicória-do-Pará é utilizada como:

  • Digestiva e carminativa

  • Estimulante do apetite

  • Anti-inflamatória leve

  • Analgésica suave

  • Antiespasmódica

É empregada em desconfortos gastrointestinais, cólicas, gases e como suporte em estados gripais leves.


Modo de uso tradicional

  • Infusão das folhas: uso digestivo e calmante

  • Decocção: utilizada popularmente para dores e processos inflamatórios leves

  • Uso culinário-medicinal: consumo regular como tempero funcional


Uso como tempero regional e curiosidades

Ingrediente essencial de pratos amazônicos como tacacá, pato no tucupi, caldeiradas, peixes e caldos regionais. Seu aroma é mais resistente ao calor que o coentro comum, sendo ideal para cozimentos longos.


Usos alimentares e como PANC

Considerada Planta Alimentícia Não Convencional (PANC):

  • Folhas: principal parte utilizada, frescas ou cozidas

  • Sementes: pouco exploradas, mas com potencial aromático e reprodutivo
    As folhas podem ser usadas em refogados, caldos, arroz, farofas, molhos e preparações tradicionais.


Bromatologia

As folhas apresentam:

  • Vitaminas A e C

  • Minerais como cálcio, ferro e potássio

  • Óleos essenciais ricos em compostos aromáticos

  • Compostos fenólicos com atividade antioxidante


Dicas de cultivo

  • Prefere clima quente e úmido

  • Desenvolve-se bem em meia-sombra

  • Solo fértil, rico em matéria orgânica e bem drenado

  • Rebrota facilmente após cortes regulares

  • Pode ser cultivada em vasos e canteiros


Curiosidades


Referências

  1. Lorenzi, H.; Kinupp, V. F. Plantas Alimentícias Não Convencionais no Brasil. Instituto Plantarum, Nova Odessa, 2014.

  2. Flora do Brasil 2020 – Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2020.

  3. Dataplamt – Banco de Dados de Plantas Medicinais do Brasil.

  4. Albuquerque, U. P. Etnobotânica Aplicada. Recife, 2010.

Chicória-do-Pará (Eryngium foetidum) - Aspecto da planta- Foto: José Carlos Bueno - Socorro-SP - 01/2026

Chicória-do-Pará (Eryngium foetidum) - Aspecto da planta- Foto: José Carlos Bueno - Socorro-SP - 01/2026

Chicória-do-Pará (Eryngium foetidum) - Aspecto da planta- Foto: José Carlos Bueno - Socorro-SP - 01/2026

Chicória-do-Pará (Eryngium foetidum) - Aspecto da planta- Foto: José Carlos Bueno - Socorro-SP - 01/2026

Chicória-do-Pará (Eryngium foetidum) - Aspecto da planta- Foto: José Carlos Bueno - Socorro-SP - 01/2026

Chicória-do-Pará (Eryngium foetidum) - Aspecto da planta- Foto: José Carlos Bueno - Socorro-SP - 01/2026

Chicória-do-Pará (Eryngium foetidum) - Aspecto da planta- Foto: José Carlos Bueno - Socorro-SP - 01/2026


sábado, 24 de janeiro de 2026

Capsicum chinense: pimentas ardidas, metabolismo ativo e saberes tradicionais

 

🌶️ Você sabia que as pimentas têm diferentes níveis de picância e usos terapêuticos?

Do leve ao extremo, as variedades de Capsicum chinense aquecem o corpo, estimulam o metabolismo e fazem parte tanto da culinária quanto da Medicina Tradicional Chinesa. Descubra como escolher, usar e equilibrar o fogo dessa planta poderosa no seu dia a dia!

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Identificação botânica

Nome científico: Capsicum chinense Jacq.
Sinonímia botânica: Capsicum sinense
Família botânica: Solanaceae

Classificação botânica atual (APG IV – 2016)

Reino: Plantae
Clado: Angiosperms
Clado: Eudicots
Ordem: Solanales
Família: Solanaceae
Gênero: Capsicum
Espécie: Capsicum chinense

Nomes populares

Pimenta-de-cheiro, pimenta-biquinho-ardida (algumas variedades), pimenta-habanero, pimenta-scotch bonnet, pimenta-cumari-do-Pará, pimenta-murupi.


Descrição botânica

Planta herbácea ou subarbustiva, perene em regiões tropicais, podendo atingir entre 60 cm e 1,5 m de altura. Possui caule ramificado, de coloração verde a levemente arroxeada. As folhas são simples, alternas, ovais a lanceoladas, de coloração verde intensa e textura lisa. As flores são solitárias ou em pequenos grupos, axilares, geralmente de coloração branca ou esverdeada, com anteras azuladas ou amareladas. O fruto é uma baga carnosa, muito aromática, de formatos variados — globoso, alongado ou lanternado — com coloração que varia do verde ao amarelo, laranja ou vermelho intenso quando maduro. A planta apresenta floração e frutificação prolongadas em climas quentes.


Origem e distribuição no Brasil

Originária da América Tropical, especialmente da região amazônica e do Caribe, Capsicum chinense é amplamente cultivada no Brasil, com forte presença no Norte e Nordeste. É comum em quintais, roças tradicionais, sistemas agroecológicos e cultivos comerciais de pimentas especiais.


Variedades e níveis de picância

Capsicum chinense reúne algumas das pimentas mais picantes do mundo:

Habanero: 100.000 a 350.000 SHU
Scotch Bonnet: 80.000 a 300.000 SHU
Murupi: 60.000 a 150.000 SHU
Cumari-do-Pará: 30.000 a 50.000 SHU

A picância é determinada principalmente pela concentração de capsaicinoides, especialmente a capsaicina.

Tabela: Escala de Picância (Capsicum chinense)
Pimenta (C. chinense) SHU (Scoville) Classificação
Pimenta Biquinho 0 - 1.000 Suave
Ají Dulce 500 - 1.000 Suave
Pimenta de Cheiro (Norte) 15.000 - 60.000 Moderada
Pimenta Bode 50.000 - 100.000 Média/Alta
Habanero 100.000 - 350.000 Alta
Bhut Jolokia (Ghost) 850.000 - 1.000.000+ Nuclear
Carolina Reaper 1.600.000 - 2.200.000 Lendária
Pepper X 2.693.000+ Recorde Mundial

Nota: O valor SHU pode variar dependendo do solo, clima e nutrição da planta.




Usos medicinais e indicações fitoterápicas

Tradicionalmente, as pimentas de Capsicum chinense são utilizadas como:

Estimulante circulatório
Auxílio digestivo
Estimulante metabólico
Adjuvante no controle do peso corporal
Analgésico tópico (uso externo, em preparações tradicionais)

A capsaicina é responsável por grande parte dessas ações, promovendo vasodilatação periférica e sensação de aquecimento corporal.


Uso como estimulante do metabolismo

A capsaicina presente nos frutos estimula a termogênese, aumentando temporariamente o gasto energético basal. Esse efeito contribui para:

Aceleração do metabolismo
Estímulo da oxidação de gorduras
Aumento da sensação de saciedade

Esses usos são tradicionalmente associados à alimentação funcional, não substituindo acompanhamento profissional.


Modo de uso tradicional

Uso interno: pequenas quantidades do fruto fresco ou seco em preparações culinárias
Uso externo: infusões alcoólicas ou oleosas aplicadas topicamente de forma tradicional para estímulo circulatório (uso popular, com cautela)

Usos alimentares e como PANC

Capsicum chinense é considerada Planta Alimentícia Não Convencional (PANC):

Frutos: amplamente utilizados como condimento fresco, seco ou em molhos fermentados
Folhas jovens: podem ser consumidas cozidas em algumas culturas tradicionais
Sementes: comestíveis, embora concentrem maior ardor, usadas na produção de pós e conservas

Bromatologia

Frutos: ricos em vitamina C, carotenoides (provitamina A), flavonoides, capsaicinoides, potássio e fibras
Folhas: contêm compostos fenólicos, minerais e pequenas quantidades de vitaminas
Sementes: ricas em lipídios, fibras e compostos pungentes

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Quiabo (Abelmoschus esculentus): usos medicinais, alimentares e valor como PANC

 

🌱 Quiabo (Abelmoschus esculentus) é muito mais que um ingrediente da culinária brasileira! Rico em fibras, vitaminas e mucilagem, ele também é reconhecido como planta medicinal e PANC, com usos tradicionais no cuidado digestivo, intestinal e metabólico. Suas folhas e sementes também são comestíveis e nutritivas. No Plantas Medicinais – Roda de Conversa, você confere identificação botânica, usos terapêuticos, bromatologia e dicas de cultivo. 🌿🍲
Conhecimento que alimenta e cuida!



Nome científico e sinonímia

Nome científico aceito: Abelmoschus esculentus (L.) Moench
Sinonímias botânicas relevantes:
Hibiscus esculentus L.; Abelmoschus longifolius (Willd.) Walp.


Classificação botânica (APG IV)


Nomes populares

Quiabo, quingombô, gombo, okra, gumbo, bhindi.


Descrição botânica

Planta herbácea anual ou perene de curta duração, de porte ereto, podendo atingir entre 1 e 2,5 metros de altura. Apresenta sistema radicular pivotante, profundo e bem desenvolvido. As folhas são grandes, alternas, palmadas, com 3 a 7 lobos, margem irregularmente serrilhada e superfície pubescente. As flores são solitárias, axilares, grandes e vistosas, com pétalas amarelo-claras a creme e centro arroxeado, típicas da família Malvaceae. A inflorescência é do tipo flor isolada axilar. O fruto é uma cápsula alongada, pentagonal, verde, com numerosas sementes arredondadas. A floração e frutificação ocorrem principalmente em períodos quentes e chuvosos.


Fenologia

Floresce entre 40 e 60 dias após o plantio, com frutificação contínua por vários meses em clima favorável.


Origem e distribuição

Originário da África Oriental, o quiabo encontra-se amplamente cultivado em regiões tropicais e subtropicais. No Brasil, é cultivado em todas as regiões, com destaque para Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste, tanto em sistemas agrícolas convencionais quanto em quintais agroecológicos.


Usos medicinais tradicionais

O quiabo é tradicionalmente utilizado como:

  • Demulcente e emoliente

  • Auxiliar no controle glicêmico

  • Regulador intestinal

  • Suporte digestivo e gástrico

  • Coadjuvante em processos inflamatórios leves


Indicações fitoterápicas

  • Constipação intestinal

  • Gastrite e irritação da mucosa gástrica

  • Apoio dietético em diabetes tipo 2

  • Redução do colesterol (uso alimentar funcional)


Modo de usar e preparo

  • Infusão ou maceração aquosa: frutos cortados em água, utilizados tradicionalmente para efeito demulcente

  • Uso alimentar terapêutico: consumo regular dos frutos cozidos ou refogados

  • Uso popular: a mucilagem é empregada para suavizar irritações gastrointestinais

⚠️ Uso medicinal tradicional não substitui acompanhamento profissional.


Usos alimentares e como PANC

O quiabo é amplamente consumido na culinária brasileira e internacional.

  • Frutos: refogados, cozidos, grelhados, ensopados

  • Folhas (PANC): podem ser cozidas como hortaliça folhosa

  • Sementes (PANC): ricas em óleo e proteínas, podem ser torradas ou moídas

Uso Alimentar das Folhas
As folhas do quiabo são comestíveis e possuem perfil nutricional semelhante ao de outras hortaliças de folhas escuras (como o espinafre).
  • Consumo In Natura e Cozido: Podem ser consumidas cruas em saladas (quando jovens e tenras) ou refogadas e cozidas em sopas e guisados.
  • Agente Espessante: Assim como o fruto, as folhas liberam uma mucilagem quando picadas e cozidas, sendo utilizadas para dar consistência a caldos.
  • Nutrição: São ricas em vitaminas A, C e minerais como cálcio e ferro. Em diversas culturas africanas e asiáticas, são um ingrediente base para molhos que acompanham cereais.
Uso Alimentar das Sementes
As sementes do quiabo, quando maduras e secas, possuem aplicações versáteis:
  • Substituto do Café: Uma das utilizações mais conhecidas é a torra e moagem das sementes secas para a produção de uma bebida que imita o sabor do café, porém sem cafeína.
  • Extração de Óleo: As sementes contêm um alto teor de óleo (cerca de 15% a 20%), rico em gorduras insaturadas (como o ácido linoleico) e vitamina E. O óleo de quiabo é comestível e possui sabor agradável.
  • Fonte de Proteína: As sementes secas podem ser moídas em farinha e adicionadas a pães e massas para aumentar o valor proteico da dieta.
  • Consumo Direto: Em algumas regiões, as sementes torradas são consumidas como "snacks" salgados.

Bromatologia

Frutos:

  • Fibras solúveis (mucilagem)

  • Vitaminas A, C e complexo B

  • Minerais: cálcio, magnésio, potássio

Folhas:

  • Proteínas vegetais

  • Cálcio, ferro e antioxidantes

Sementes:

  • Lipídios insaturados

  • Proteínas

  • Compostos fenólicos


Dicas de cultivo

  • Prefere clima quente e sol pleno

  • Solo fértil, bem drenado e rico em matéria orgânica

  • Irrigação regular, sem encharcamento

  • Colheita frequente estimula maior produção


Curiosidades

  • A mucilagem do quiabo é estudada como ingrediente funcional e espessante natural

  • Na África e na Índia, é considerado alimento medicinal

  • As sementes já foram usadas como substituto do café

  • Planta de grande importância em sistemas agroecológicos e segurança alimentar


Citações e referências (links numerados)

  1. Lorenzi, H. Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil. Instituto Plantarum.

  2. Brasil. Ministério da Saúde. Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira.

  3. FAO – Food and Agriculture Organization. Okra: Production and Uses.

  4. Duke, J. A. Handbook of Medicinal Herbs.

  5. Kays, S. J. Cultivated Vegetables of the World.



Quiabo (Abelmoschus esculentus) - Planta florida - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 01/26 

Quiabo (Abelmoschus esculentus) - Detalhe dos frutos imaturos - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 01/26

Quiabo (Abelmoschus esculentus) - Detalhe da folha - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 01/26

Quiabo (Abelmoschus esculentus) - Planta em flutificação - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 01/26



domingo, 18 de janeiro de 2026

Erva-Cidreira, Capim-Santo ou Melissa? Guia Completo de Identificação e Usos Medicinais

🌿 Erva-cidreira, capim-santo ou melissa?
Você sabia que esses nomes populares podem se referir a plantas diferentes, com aromas, usos e efeitos distintos? Na nova postagem do Plantas Medicinais – Roda de Conversa, explicamos como identificar corretamente cada uma, seus usos medicinais, preparo adequado e cuidados no uso tradicional. Informação clara para evitar confusões e usar as plantas com mais segurança e consciência. 🍵✨
Leia, compartilhe e fortaleça o saber popular com base científica!

Seja muito bem-vindo ao nosso espaço de saber botânico! Este blog foi criado com o intuito de informar e detalhar o uso de espécies vegetais para que possamos contemplar a beleza e utilidade da nossa flora, por isso hoje vamos desvendar o universo das "Cidreiras", um nome popular que no Brasil abriga plantas de famílias botânicas totalmente distintas, mas que compartilham o característico aroma cítrico

A Importância da Correta Identificação

A confusão nominal entre as cidreiras ocorre porque a população prioriza as características sensoriais (cheiro e sabor) em detrimento da estrutura botânica. Saber distinguir cada espécie é vital para a segurança terapêutica, pois a substituição inadvertida pode levar a tratamentos ineficazes ou reações adversas. Um exemplo grave é a confusão entre o capim-cidreira e a citronela (Cymbopogon nardus), que é utilizada apenas como repelente e pode ser tóxica se ingerida. Além disso, plantas como a melissa possuem contraindicações específicas, podendo interferir na função tireoidiana.


1. Melissa ou Cidreira-verdadeira

  • Nome Científico: Melissa officinalis L.
  • Família: Lamiaceae.
  • Características Botânicas: Erva rasteira ou ereta, perene, atingindo entre 30 e 80 cm. Possui ramos quadrangulares e folhas opostas, simples e ovaladas, com margens crenadas e textura pilosa que lembra a hortelã. No Brasil, raramente produz flores devido ao clima; quando surgem, são pequenas e de cor branca a rosada.
  • Princípios Ativos: Óleo essencial rico em citral (neral e geranial), citronelal e geraniol; além de polifenóis como o ácido rosmarínico e taninos.
  • Indicações Medicinais:
    • Conhecimento Popular: Utilizada há mais de 2000 anos como calmante, para tratar melancolia, insônia, gases e palpitações. Em Bueno Brandão-MG, é uma das ervas citadas pela população para uso doméstico.
    • Comprovação Científica: Possui ação sedativa, ansiolítica (modulando o sistema GABA), antiespasmódica e antiviral comprovada, sendo eficaz contra o vírus Herpes simplex, gripe e caxumba.

2. Cidreira-de-arbusto ou Cidreira-brasileira

  • Nome Científico: Lippia alba (Mill.) N.E. Br. ex Britton & P. Wilson.
  • Família: Verbenaceae.
  • Características Botânicas: Arbusto nativo da América do Sul que atinge até 2 metros de altura. Seus ramos são finos, longos, arqueados e quebradiços. As folhas são opostas, aveludadas e com bordas serrilhadas. Floresce abundantemente no Brasil com cores que variam do branco e rosa ao roxo.
  • Princípios Ativos: Apresenta grande variabilidade química (quimiotipos), podendo ser rica em linalol, carvona ou citral.
  • Indicações Medicinais:
    • Conhecimento Popular: Usada como calmante, analgésico para dores de estômago, resfriados e problemas hepáticos. É citada em levantamentos etnobotânicos no interior de Minas Gerais.
    • Comprovação Científica: Estudos confirmam ações sedativa, analgésica, anticonvulsivante, antifúngica e gastroprotetora.

3. Capim-cidreira ou Capim-santo

  • Nome Científico: Cymbopogon citratus (DC.) Stapf.
  • Família: Poaceae.
  • Características Botânicas: Gramínea perene que forma touceiras densas de até 2 metros. Suas folhas são lineares, longas, ásperas e possuem bordos cortantes devido à presença de sílica. Praticamente não floresce no clima brasileiro.
  • Princípios Ativos: Óleo essencial composto majoritariamente por citral e mirceno.
  • Indicações Medicinais:
    • Conhecimento Popular: Comum para o tratamento de males do estômago, febre, tosse e como calmante suave. Em Bueno Brandão, é a segunda planta mais citada pela comunidade (23 menções).
    • Comprovação Científica: Demonstrou efeitos bactericida, fungicida (contra Candida albicans), analgésico periférico (potencializado pelo mirceno) e hipotensor.

4. Cidrão ou Erva-luísa

  • Nome Científico: Aloysia citriodora Palau (sinonímia Aloysia triphylla).
  • Família: Verbenaceae.
  • Características Botânicas: Arbusto de grande porte (2 a 3 metros) nativo da região andina. Suas folhas surgem em verticilos de três (três folhas por nó) e possuem um aroma cítrico refinado. Flores brancas com sombras lilás em panículas terminais.
  • Princípios Ativos: Rico em citral, o que lhe confere um perfume valorizado na culinária e perfumaria.
  • Indicações Medicinais:
    • Conhecimento Popular: Utilizado para males respiratórios, digestivos e como calmante. No Sul do Brasil, é muito conhecido como "cidró".
    • Comprovação Científica: Possui propriedades antibacterianas, antiespasmódicas e antioxidantes.

Diferenças Comparativas para não errar mais:

  • Formato da Planta: O capim-cidreira é uma gramínea (parece um capim alto); a melissa é uma erva baixa; a lípia e o cidrão são arbustos arqueados.
  • Flores: A lípia floresce muito no Brasil (roxo/branco); o capim-cidreira e a melissa raramente florescem por aqui.
  • Folhas: As folhas da melissa lembram hortelã; as da lípia são aveludadas e menores; as do capim-cidreira são longas tiras de bordas ásperas e cortantes.
  • Uso Específico: Escolha a melissa para ansiedade com herpes; o capim-santo para dores musculares; e a lípia (quimiotipo citral) para cólicas abdominais.

Lembre-se sempre: o uso de plantas medicinais deve ser feito com cautela e sob orientação de um profissional de saúde. A identificação botânica correta é a sua maior aliada para um tratamento seguro!.



Tabela comparativa entre as "Cidreiras":

 (clique na imagem para ampliar)


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Espinheira-santa (Maytenus ilicifolia): planta medicinal gástrica consagrada pelo SUS

 

🌿 Espinheira-santa (Maytenus ilicifolia)
Planta medicinal brasileira consagrada no cuidado do estômago. Tradicionalmente usada contra gastrite, úlcera e azia, é reconhecida oficialmente pelo SUS e pelo Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira. Suas folhas protegem a mucosa gástrica e auxiliam na cicatrização de lesões. O uso deve ser feito na forma de infusão, com orientação e moderação. Um exemplo de saber popular validado pela ciência e pela saúde pública.



Nome científico e classificação

  • Nome científico: Maytenus ilicifolia Mart. ex Reissek

  • Sinonímias botânicas: Celastrus ilicifolius Mart.; Maytenus aquifolia Mart. (sinonímias históricas)

  • Classificador: Martius ex Reissek

  • Classificação mais recente: Angiospermae – Eudicotyledoneae

  • Família botânica: Celastraceae


Nomes populares

Espinheira-santa, espinho-de-Deus, salva-vidas, cancerosa, sombra-de-touro.


Descrição botânica

Arbusto ou pequena árvore perene, com porte variando entre 2 e 5 metros de altura. Possui caule lenhoso, ramificado, com casca pardo-acinzentada. As folhas são simples, alternas, coriáceas, de coloração verde-escura brilhante, com margens onduladas e espinhosas, lembrando folhas de azevinho. As flores são pequenas, esverdeadas a esbranquiçadas, dispostas em inflorescências axilares do tipo cimeira, pouco vistosas. Os frutos são cápsulas pequenas, de coloração alaranjada quando maduras, contendo sementes envoltas por arilo. Sistema radicular profundo e bem desenvolvido. A floração ocorre principalmente entre a primavera e o verão.


Região de origem e ocorrência no Brasil

Espécie nativa do Brasil, ocorrendo principalmente nos biomas Mata Atlântica e Floresta Ombrófila Mista (Araucárias). É encontrada com maior frequência nas regiões Sul e Sudeste, especialmente nos estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais.


Usos medicinais tradicionais

A espinheira-santa é uma das plantas medicinais mais tradicionais do Brasil, utilizada há séculos para:

  • Dores e inflamações gástricas

  • Má digestão

  • Úlceras e gastrites

  • Azia e refluxo gastroesofágico

Seu uso popular é amplamente corroborado por estudos farmacológicos.


Modo de usar e preparação

  • Infusão das folhas:
    1 a 2 g de folhas secas (aprox. 1 colher de sobremesa) para 150 ml de água quente
    Tomar até 3 vezes ao dia, preferencialmente antes das refeições

⚠️ Evitar uso prolongado sem orientação profissional.


Usos medicinais e indicações fitoterápicas

Reconhecida como:

  • Protetora gástrica

  • Antiulcerogênica

  • Antiácida funcional

  • Anti-inflamatória da mucosa digestiva

Atua reduzindo a secreção ácida, protegendo a mucosa do estômago e auxiliando na cicatrização de lesões gástricas.


Uso no SUS e no Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira

A Maytenus ilicifolia consta oficialmente no Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira, sendo indicada no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) como:

  • Tratamento auxiliar de gastrite e úlcera péptica

  • Distúrbios digestivos associados à hiperacidez gástrica

👉 Parte utilizada: folhas
👉 Forma farmacêutica: droga vegetal para infusão
👉 Via de uso: oral

Este reconhecimento reforça sua segurança e eficácia quando utilizada corretamente.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Graviola (Annona muricata): Guia Terapêutico Completo, Benefícios, Verdades sobre o Câncer e Cultivo

(Anona muricata L). - Detalhe da inflorescência - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 01-2026

"Ela é a rainha dos sucos no Nordeste e uma potência na farmácia natural. Mas será que a Graviola realmente cura tudo? Puxe a cadeira para nossa roda de conversa: hoje vamos descascar os mitos, as verdades científicas e os cuidados necessários com essa planta poderosa."


Identificação Botânica


Descrição Botânica

A gravioleira apresenta-se como uma árvore de porte pequeno a médio, podendo atingir entre 4 a 8 metros de altura, com um sistema radicular axial que, embora não seja extremamente profundo, possui raízes laterais bem desenvolvidas que garantem sua sustentação. Seu tronco é reto, ramificando-se desde a base, com casca aromática. As folhas são perenes, alternas e simples, de coloração verde-escura brilhante na face superior e verde-fosca na inferior, apresentando formato obovado a elíptico, coriáceas (textura semelhante a couro) e com cheiro característico quando amassadas.

As flores da Annona muricata são isoladas ou em pares, grandes e carnosas, com pétalas externas espessas de cor amarelo-esverdeada, surgindo diretamente no tronco ou nos ramos (caulifloria). O fruto, a parte mais conhecida, é um sincarpo (fruto composto/agregado) de formato ovalado ou cordiforme, coberto por uma casca verde com espinhos carnosos e recurvados (muricados). Sua polpa é branca, fibrosa, suculenta e envolve numerosas sementes negras e ovais. Quanto à fenologia, em condições tropicais ideais, pode florescer e frutificar durante quase todo o ano, com picos definidos dependendo da pluviosidade local [1][2].


Origem e Ocorrência no Brasil

Originária da América Central e das Antilhas (Caribe), a graviola adaptou-se perfeitamente aos climas tropicais úmidos. No Brasil, ela encontrou seu segundo lar, sendo encontrada cultivada e subespontânea em praticamente todo o território, com destaque absoluto para a região Nordeste e a região Amazônica, onde as condições de calor e umidade favorecem seu pleno desenvolvimento e doçura [2].


Usos Medicinais e Indicações Fitoterápicas

Na medicina tradicional, a graviola é utilizada há séculos. As partes mais empregadas são as folhas, cascas e raízes.

  1. Ação Sedativa e Hipotensora: O uso mais consolidado popularmente é o chá das folhas para auxiliar no tratamento da insônia, nervosismo e palpitações, devido às suas propriedades depressoras do sistema nervoso central e vasodilatadoras leve [4].

  2. Ação Digestiva e Adstringente: O fruto verde ou a decocção da casca são utilizados em casos de disenteria e diarreias, devido à sua adstringência.

  3. Antiparasitário: As sementes esmagadas e o óleo das folhas possuem atividade comprovada contra piolhos e parasitas externos, embora seu uso exija cautela [1].

Modo de Usar e Preparação (Sugestão Tradicional)

  • Infusão (Chá das Folhas): Utiliza-se 1 colher de sopa de folhas secas rasuradas para 1 litro de água fervente. Abafar por 10 minutos. Tomar 1 a 2 xícaras ao dia, preferencialmente à tarde ou noite (devido ao efeito sedativo).

  • Cataplasma: Folhas maceradas aplicadas sobre a pele para afecções cutâneas e inflamações locais.


Investigação Científica: O Potencial Anticancerígeno

Este é o tópico que mais gera dúvidas na nossa roda de conversa. Estudos científicos confirmaram que a Annona muricata é rica em compostos chamados Acetogeninas Anonáceas. Pesquisas in vitro (em laboratório) e in vivo (em animais) demonstraram que essas substâncias possuem alta citotoxicidade contra diversas linhagens de células cancerígenas, incluindo câncer de mama, cólon, pulmão e próstata, agindo na inibição da produção de energia (ATP) das células tumorais [3][5].

No entanto, é preciso cautela: ainda faltam ensaios clínicos robustos em humanos que determinem a dose segura e a eficácia definitiva para a cura do câncer. Portanto, a graviola deve ser vista como um coadjuvante promissor e preventivo, e jamais deve substituir o tratamento oncológico convencional (quimioterapia/radioterapia) sem o conhecimento médico.


Usos Alimentares

A polpa da graviola é uma excelente fonte de vitamina C, vitaminas do complexo B, potássio e fibras. É amplamente utilizada na culinária para:

  • Sucos e vitaminas (muito populares no Nordeste).

  • Sorvetes, picolés e mousses.

  • Geleias e doces em compota.

  • Consumo in natura (embora a acidez e a textura fibrosa desagradem alguns paladares).


Dicas de Cultivo

Para ter uma gravioleira saudável no quintal:

  1. Clima: Exige clima quente (temperatura média de 25°C a 28°C). Não tolera geadas ou frio intenso.

  2. Solo: Prefere solos profundos, arenosos ou argilosos, mas com excelente drenagem. O encharcamento apodrece as raízes rapidamente.

  3. Luz: Sol pleno.

  4. Polinização: A flor da graviola tem uma maturação complexa. Muitas vezes, a polinização manual (ou a presença de besouros polinizadores) é necessária para garantir frutos bem formados e não "tortos" [2].


Curiosidades

  • O nome "Soursop" em inglês traduz-se literalmente como "sopa azeda", referindo-se ao sabor agridoce e à textura cremosa da polpa.

  • Um fruto de graviola pode pesar de 750g até incríveis 8kg, dependendo da variedade (como a Graviola Morada ou a Graviola Lisa).


Precauções, Toxicidade e Interações

Apesar de natural, a graviola não é isenta de riscos.

  1. Neurotoxicidade: O consumo excessivo e contínuo (crônico) do chá das folhas, sementes ou até mesmo do fruto em quantidades industriais tem sido associado ao acúmulo de Anonacina. Estudos sugerem uma correlação entre o consumo elevado e o desenvolvimento de parkinsonismo atípico (uma forma de doença neurodegenerativa), comum na ilha de Guadalupe, onde o consumo é altíssimo [4][6].

  2. Hipotensão: Pessoas que já têm pressão muito baixa devem evitar o consumo regular, pois pode causar tonturas e desmaios.

  3. Gravidez: É contraindicada para gestantes, pois possui propriedades relaxantes do músculo liso uterino, podendo estimular o útero (efeito abortivo em doses altas) [1].

  4. Interações: Pode potencializar o efeito de medicamentos anti-hipertensivos e antidepressivos.


Referências Bibliográficas

[1] LORENZI, H.; MATOS, F. J. A. Plantas Medicinais no Brasil: nativas e exóticas. 2. ed. Nova Odessa: Instituto Plantarum, 2008.

[2] EMBRAPA. A cultura da graviola. 2. ed. rev. e ampl. Brasília, DF: Embrapa Informação Tecnológica, 2003. Disponível em: https://www.embrapa.br

[3] MOGHADAMTTE, S. Z. et al. Annona muricata (Annonaceae): A Review of Its Traditional Uses, Isolated Acetogenins and Biological Activities. International Journal of Molecular Sciences, v. 16, n. 7, p. 15625–15658, 2015.

[4] ANVISA. Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira. 1. ed. Brasília: Agência Nacional de Vigilância Sanitária, 2016.

[5] TORRES, M. P. et al. Graviola: A novel promising natural-derived drug target against cancer in vitro and in vivo. Carcinogenesis, v. 33, n. 10, p. 2036-2044, 2012.

[6] CHAMPY, P. et al. Annonacin, a lipophilic inhibitor of mitochondrial complex I, induces nigral and striatal neurodegeneration in a rat model of atypical parkinsonism. Experimental Neurology, v. 186, n. 1, p. 57-66, 2004.


Links das Referências Citadas

(Anona muricata L). - Detalhe do fruto imaturo - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 01-2026

(Anona muricata L). - Ramo florido - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 01-2026

(Anona muricata L). - Detalhe da inflorescência - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 01-2026


(Anona muricata L). - Ramo com fruto imaturo Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 01-2026

(Anona muricata L). - Aspecto da planta - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 01-2026


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