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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Carqueja (Baccharis trimera): benefícios, usos medicinais, cultivo e evidências científicas

 

🌿 Carqueja (Baccharis trimera) é uma das plantas medicinais mais tradicionais do Brasil, famosa pelo sabor amargo e pelo uso popular para auxiliar na digestão e na saúde do fígado. Pesquisas científicas confirmam seu potencial antioxidante, hepatoprotetor e anti-inflamatório, mas seu uso deve ser consciente e não substitui tratamentos médicos. Além de medicinal, é uma excelente planta para jardins naturais e atrai polinizadores. Descubra sua história, cultivo e benefícios em nossa nova publicação!

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A carqueja: uma das plantas medicinais mais tradicionais da fitoterapia brasileira

Amarga ao paladar, mas extremamente valorizada na medicina popular, a carqueja (Baccharis trimera (Less.) DC.) é uma das espécies medicinais mais conhecidas da América do Sul. Há séculos é utilizada como digestiva, hepatoprotetora e auxiliar nos distúrbios gastrointestinais. Atualmente, estudos científicos confirmam diversas de suas propriedades farmacológicas, tornando-a uma das plantas medicinais brasileiras mais investigadas. Seu uso, entretanto, deve ser criterioso e complementar às orientações de profissionais da saúde.


Identificação botânica

Nome científico

Baccharis trimera (Less.) DC.

Sinonímia relevante

Entre os principais sinônimos botânicos encontrados na literatura destacam-se:

  • Molina trimera Less.

  • Baccharis genistelloides var. trimera (Less.) Baker

Atualmente, Baccharis trimera é o nome aceito pelas principais bases taxonômicas internacionais.

Nomes populares

  • Carqueja

  • Carqueja-amarga

  • Carqueja-verdadeira

  • Carqueja-do-campo

  • Carqueja-miúda

  • Bacanta (algumas regiões)

  • Carquejinha


Classificação botânica (APG IV)

  • Reino: Plantae

  • Clado: Angiospermas

  • Clado: Eudicotiledôneas

  • Ordem: Asterales

  • Família: Asteraceae

  • Gênero: Baccharis

  • Espécie: Baccharis trimera (Less.) DC.


Descrição botânica

A carqueja é um subarbusto perene que normalmente mede entre 50 cm e 1,5 metro de altura. Sua característica mais marcante é a quase ausência de folhas desenvolvidas. A fotossíntese ocorre principalmente nos ramos achatados e alados, conhecidos como cladódios, que apresentam três expansões longitudinais bem evidentes — característica que originou o epíteto específico trimera.

Os ramos são verdes, rígidos e muito ramificados. As folhas verdadeiras são pequenas, simples e caducas, caindo precocemente durante o desenvolvimento da planta.

As flores são pequenas, esbranquiçadas ou creme, reunidas em numerosos capítulos típicos da família Asteraceae. Trata-se de uma espécie dióica, ou seja, existem plantas masculinas e femininas separadas.

A frutificação produz pequenos aquênios providos de papilho branco, que facilita a dispersão pelo vento, permitindo sua ampla colonização de áreas abertas.


Origem e distribuição no Brasil

A carqueja é nativa da América do Sul, ocorrendo naturalmente no Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

No Brasil é encontrada principalmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, sendo muito comum em campos naturais, áreas de Cerrado, campos rupestres, bordas de estradas, pastagens e áreas em regeneração.

Prefere ambientes ensolarados, solos bem drenados e tolera períodos prolongados de seca.


Usos medicinais e indicações fitoterápicas

A carqueja figura entre as espécies medicinais mais estudadas da flora brasileira.

Seu uso tradicional inclui:

  • má digestão;

  • sensação de estômago pesado;

  • dispepsia;

  • azia leve;

  • distúrbios hepáticos leves;

  • alterações do fluxo biliar;

  • perda de apetite;

  • constipação leve;

  • auxiliar em dietas para controle glicêmico (uso popular);

  • auxiliar no metabolismo de gorduras (uso tradicional).

Estudos farmacológicos demonstram atividades:

  • digestiva;

  • colagoga (estimula a liberação de bile);

  • colerética (estimula a produção de bile);

  • hepatoprotetora;

  • antioxidante;

  • anti-inflamatória;

  • hipoglicemiante (estudos experimentais);

  • hipolipemiante;

  • antimicrobiana;

  • gastroprotetora.

Alguns estudos sugerem potencial benefício no controle metabólico da síndrome metabólica, porém ainda são necessários ensaios clínicos adicionais.


Constituintes fitoquímicos

Os principais compostos identificados incluem:

  • flavonoides (especialmente hispidulina, apigenina, luteolina e nepetina);

  • diterpenos clerodânicos;

  • lactonas sesquiterpênicas;

  • ácidos fenólicos;

  • saponinas;

  • óleos essenciais;

  • compostos fenólicos antioxidantes;

  • taninos.

Grande parte da atividade antioxidante e hepatoprotetora está relacionada ao elevado teor de flavonoides.


Toxicidade e interações medicamentosas

Quando utilizada nas doses tradicionais, a carqueja apresenta bom perfil de segurança.

Entretanto, recomenda-se cautela nas seguintes situações:

  • gravidez (evitar o uso);

  • lactação;

  • crianças pequenas;

  • pacientes com hipotensão importante;

  • indivíduos com hipoglicemia.

Pessoas diabéticas que utilizam medicamentos hipoglicemiantes devem monitorar a glicemia, pois estudos sugerem possível efeito redutor da glicose.

Também existe potencial de interação com:

  • medicamentos para diabetes;

  • anti-hipertensivos;

  • anticoagulantes (há poucos estudos, sendo recomendada cautela).

O uso prolongado sem acompanhamento profissional não é recomendado.


Modo de uso

Tradicionalmente utiliza-se a parte aérea da planta.

Infusão

Empregar aproximadamente 2 a 3 g da planta seca para 150 a 200 mL de água fervente.

Tampar e deixar em infusão por cerca de 10 minutos.

Consumir uma a duas xícaras ao dia, preferencialmente antes das principais refeições.

O sabor bastante amargo faz parte de sua ação digestiva tradicional.

Não é recomendado adoçar excessivamente a bebida.

Sempre utilizar plantas corretamente identificadas, provenientes de cultivo próprio ou de fornecedores confiáveis, evitando material coletado em margens de rodovias, áreas contaminadas ou sujeitas à pulverização agrícola.


Usos no paisagismo

Embora seja mais conhecida como planta medicinal, a carqueja possui interessante potencial paisagístico.

Sua arquitetura formada por ramos verdes e alados cria textura diferenciada em jardins de inspiração naturalista.

É indicada para:

  • jardins de plantas medicinais;

  • jardins do Cerrado;

  • jardins xerófitos;

  • recuperação paisagística de áreas degradadas;

  • projetos de educação ambiental;

  • jardins para polinizadores.

Durante a floração atrai inúmeras abelhas nativas, borboletas e pequenos insetos benéficos.


Dicas de cultivo

A carqueja é extremamente resistente.

Solo: bem drenado, arenoso ou franco.

Luminosidade: pleno sol.

Clima: tropical, subtropical e temperado.

Irrigação: moderada.

Tolera estiagem.

A propagação pode ser feita por sementes ou estacas.

Responde bem à poda, emitindo novos brotos vigorosos.


Curiosidades

  • O nome "carqueja" provavelmente deriva do espanhol "carqueixa", utilizado para espécies semelhantes da Península Ibérica.

  • É considerada uma das principais plantas digestivas da medicina popular brasileira.

  • Seu sabor extremamente amargo é consequência da presença de diterpenos e lactonas sesquiterpênicas.

  • É muito visitada por abelhas durante a floração.

  • Existem diversas espécies conhecidas como carqueja, sendo importante utilizar corretamente Baccharis trimera, que é a espécie mais estudada.


Etnobotânica, cultura e história

A carqueja acompanha a história da medicina popular sul-americana há séculos. Povos indígenas e comunidades rurais utilizavam a planta principalmente após refeições pesadas e para aliviar problemas digestivos. Com a imigração europeia, seu uso difundiu-se ainda mais, tornando-se presença constante nas hortas medicinais familiares. Atualmente integra diversos programas de fitoterapia, sendo uma das espécies brasileiras mais pesquisadas em universidades.


Considerações finais

A carqueja é uma das plantas medicinais brasileiras com maior respaldo científico para uso tradicional em distúrbios digestivos leves. Seu elevado conteúdo de flavonoides e outros metabólitos bioativos explica parte das atividades antioxidante, hepatoprotetora e anti-inflamatória observadas em estudos experimentais. Apesar disso, deve ser utilizada com moderação e sempre como complemento aos cuidados médicos, especialmente em pessoas com doenças crônicas ou em uso de medicamentos.


Referências científicas

  1. Flora e Funga do Brasil – Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Baccharis trimera. https://floradobrasil.jbrj.gov.br/

  2. Lorenzi, H.; Matos, F. J. A. Plantas Medicinais no Brasil: Nativas e Exóticas. Instituto Plantarum, 2008.

  3. Simões, C. M. O. et al. Farmacognosia: Da Planta ao Medicamento. Editora UFRGS/UFSC.

  4. Corrêa, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil e das Exóticas Cultivadas. https://www.dominiopublico.gov.br/

  5. Budel, J. M. et al. "Pharmacobotanical study of Baccharis trimera". Brazilian Journal of Pharmacognosy. https://www.scielo.br/

  6. Oliveira, S. Q. et al. Estudos fitoquímicos e farmacológicos de Baccharis trimera. Revista Brasileira de Farmacognosia. https://www.scielo.br/

  7. PubMed – Estudos sobre atividades hepatoprotetora, antioxidante e anti-inflamatória de Baccharis trimera. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/

  8. Farmacopeia Brasileira, 6ª edição. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). https://www.gov.br/anvisa/

  9. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira. ANVISA. https://www.gov.br/anvisa/

  10. Organização Mundial da Saúde (WHO). WHO Guidelines on Good Agricultural and Collection Practices (GACP) for Medicinal Plants. https://www.who.int/


Carqueja (Baccharis trimera) - Planta florida - Fotografia: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 07/26

Carqueja (Baccharis trimera) - Planta florida - Fotografia: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 07/26

Carqueja (Baccharis trimera) - Planta florida - Fotografia: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 07/26

Carqueja (Baccharis trimera) - Detalhe das inflorescências (capítulos) - Fotografia: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 07/26


sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Arruda (Ruta graveolens L.): Planta Medicinal, Aromática e PANC

 

“Arruda (Ruta graveolens): o poder e o cuidado por trás de uma das plantas medicinais mais antigas do mundo”
Descubra as propriedades terapêuticas, químicas e energéticas da arruda, planta que une ciência, tradição e precaução. Saiba como utilizá-la de forma segura e eficaz na fitoterapia e no seu dia a dia.

Classificação botânica


Descrição botânica

A Arruda (Ruta graveolens) é uma planta arbustiva perene que pode atingir de 50 a 100 cm de altura, apresentando ramificação densa e lenhosa na base. As folhas são compostas, penadas, de coloração verde-azulada, com odor forte e característico devido à presença de óleos essenciais. As flores são amareladas, pequenas e dispostas em inflorescências terminais do tipo corimbo, com floração predominante entre primavera e verão.
Os frutos são cápsulas arredondadas contendo várias sementes pequenas e escuras. O sistema radicular é pivotante e ramificado.

A planta é nativa da região mediterrânea, adaptando-se bem em regiões de clima subtropical e tropical, sendo amplamente cultivada no Brasil tanto por seus usos medicinais quanto por crenças populares e fins ornamentais.


Usos medicinais

A arruda é tradicionalmente empregada como planta medicinal há séculos. Seus principais compostos bioativos incluem rutina, quercetina, furanocumarinas (bergapteno e xantotoxina) e óleos essenciais ricos em metilnonilcetona e limoneno.

As propriedades mais estudadas e reconhecidas incluem:

  • Antiespasmódica e digestiva

  • Antimicrobiana e antifúngica

  • Antioxidante e anti-inflamatória

  • Sedativa leve e calmante nervosa

  • Emenagoga (estimula o fluxo menstrual)

  • Repelente natural de insetos



Modo de usar e preparação

Infusão (uso interno leve):
Utilizar 1 colher de chá das folhas secas para 250 ml de água fervente. Deixar em infusão por 5 a 10 minutos, coar e consumir no máximo 1 xícara ao dia, por até 5 dias.
⚠️ Uso interno deve ser limitado e supervisionado por profissional de saúde, devido à toxicidade potencial.

Uso externo:
Pode ser usada em banhos de assepsia, lavagens tópicas e repelente natural. Para esse fim, preparar infusão com duas colheres de folhas por litro de água e aplicar externamente.


Indicações fitoterápicas


Receita extemporânea medicinal

Tintura de arruda (uso externo)

  • 100 g de folhas frescas de arruda

  • 500 ml de álcool de cereais (ou álcool 70%)
    Deixar em maceração por 10 dias em frasco escuro. Coar e usar topicamente em pequenas quantidades para massagens em áreas reumáticas ou como repelente natural (nunca ingerir).


Usos como PANC

Embora não seja comum o uso alimentar da arruda, pequenas quantidades das folhas jovens são utilizadas como condimento aromático em conservas, queijos e bebidas, especialmente na culinária mediterrânea.
⚠️ Deve ser usada com extrema moderação, pois o sabor é muito forte e amargo e o consumo excessivo pode causar toxicidade.


Receita alimentar tradicional

Azeite aromatizado com arruda

  • 1 ramo pequeno de arruda fresca

  • 250 ml de azeite de oliva
    Deixar em infusão por 7 dias em recipiente escuro. Usar em pequenas gotas para temperar saladas ou queijos curados.
    👉 A arruda confere aroma intenso e ligeiramente picante.


Bromatologia

ComponenteValor estimado (folhas frescas, 100g)
Umidade78–80%
Proteínas2,5–3,0 g
Fibras2,1 g
Lipídeos0,9 g
Cinzas (minerais totais)1,5 g
Vitamina C90 mg
Rutina (flavonoide)até 30 mg
Cálcio150 mg
Potássio450 mg
Ferro3 mg
Atividade antioxidanteAlta (capacidade de eliminação de radicais livres)

Toxicidade e interações medicamentosas

A arruda contém furanocumarinas, que podem causar fotossensibilidade, hepatotoxicidade e lesões renais quando usada em excesso.
⚠️ Contraindicada para gestantes (pode causar aborto), lactantes e crianças.
Pode interagir com anticoagulantes, sedativos, anti-hipertensivos e anticoncepcionais.


Usos no paisagismo e recomposição

A arruda é usada em canteiros ornamentais, hortas domésticas e jardins medicinais, valorizada por seu odor repelente e flores amarelas delicadas. Em sistemas agroecológicos, atua como barreira natural contra insetos.


Dicas de cultivo

  • Clima: prefere regiões tropicais e subtropicais.

  • Luz: pleno sol.

  • Solo: bem drenado, arenoso e rico em matéria orgânica.

  • Propagação: por sementes ou estacas.

  • Manutenção: podas leves estimulam o crescimento e a floração.


Curiosidades

  • A arruda é uma das plantas mais citadas em ritos religiosos afro-brasileiros e medicina popular europeia.

  • Na Roma Antiga, era usada para afastar o “mau-olhado” e purificar ambientes.

  • Seu nome “ruta” vem do grego reuo, que significa “libertar” — referência a sua capacidade simbólica de “libertar do mal”.


Bibliografia

  • Lorenzi, H. & Matos, F.J.A. Plantas Medicinais no Brasil: Nativas e Exóticas. Nova Odessa: Instituto Plantarum, 2008.

  • Rodrigues, V.E.G.; Carvalho, D.A. “Plantas medicinais utilizadas no município de Ouro Preto – MG.” Revista Brasileira de Farmacognosia, 2001. DOI: 10.1590/S0102-695X2001000400018.

  • Souza, G.C. et al. “Atividade antimicrobiana e composição química de Ruta graveolens L.” Revista Fitos, 2012. DOI: 10.5935/2446-4775.20120028.

  • Corrêa, M.P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil, 1984.

  • Carvalho, J.L.S. “Toxicidade e uso racional da arruda.” Rev. Bras. Pl. Med., 2015. DOI: 10.1590/1983-084X/15_071.

Ruta graveolens L.
Arruda - Ruta graveolens L - Ramo Florido - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão -11/2021

Ruta graveolens L.
Arruda - Ruta graveolens L - Planta Florida - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão -11/2021


Ruta graveolens L.
Arruda - Ruta graveolens L - Ramo Florido - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão -11/2021







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