Mentruz: uma pequena planta com grande tradição na medicina popular e na alimentação
Conhecido em diversas regiões do Brasil como mentruz, mastruço, mastruz-do-campo, mastruço-miúdo, erva-de-santa-maria-do-campo (não confundir com Dysphania ambrosioides) e agrião-do-campo, o Coronopus didymus (L.) Sm. é uma pequena herbácea aromática pertencente à família Brassicaceae. Apesar de muitas vezes ser considerada uma planta espontânea ou "mato", possui uma longa história de uso popular como alimento, condimento e planta medicinal.
Seu sabor lembra o do agrião, porém é mais intenso e levemente picante. Além disso, estudos científicos demonstram que possui compostos bioativos com potencial antioxidante, antimicrobiano e anti-inflamatório, embora ainda existam poucos ensaios clínicos em humanos.
Identificação botânica
Nome científico: Coronopus didymus (L.) Sm.
Principais sinonímias
Lepidium didymum L.
Coronopus rugosus
Senebiera didyma
Nomes populares
Mentruz
Mentrusto
Mastruço
Mastruço-miúdo
Agrião-do-campo
Erva-pimenta
Swinecress (inglês)
Classificação botânica (APG IV)
Reino: Plantae
Divisão: Tracheophyta
Classe: Magnoliopsida
Ordem: Brassicales
Família: Brassicaceae
Gênero: Coronopus
Espécie: Coronopus didymus (L.) Sm.
Descrição botânica
O mentruz é uma herbácea anual ou bianual, rasteira ou levemente ascendente, normalmente entre 10 e 40 cm de altura. Desenvolve caule muito ramificado desde a base, formando pequenas touceiras.
As folhas são profundamente divididas, com segmentos estreitos e recortados, apresentando coloração verde intensa e odor característico quando amassadas.
As flores são extremamente pequenas, esbranquiçadas ou esverdeadas, reunidas em racemos discretos.
Os frutos são pequenos silicículos arredondados, compostos por dois lóbulos unidos, característica que originou o nome científico "didymus" (gêmeos).
As sementes são pequenas, de coloração castanha, germinando facilmente após períodos de chuva.
É considerada espécie ruderal, colonizando rapidamente solos revolvidos.
Origem e distribuição
A origem exata permanece discutida, sendo frequentemente atribuída à região mediterrânea e ao oeste da Ásia.
Atualmente tornou-se praticamente cosmopolita.
No Brasil ocorre em praticamente todos os estados, especialmente:
Sul
Sudeste
Centro-Oeste
áreas serranas
hortas
quintais
terrenos cultivados
lavouras
Prefere clima ameno e solos férteis.
Usos medicinais e indicações fitoterápicas
Na medicina tradicional brasileira, o mentruz é empregado principalmente como:
expectorante
descongestionante
digestivo
estimulante do apetite
diurético leve
anti-inflamatório popular
antisséptico suave
Na medicina popular também é utilizado em:
resfriados
tosse
bronquite leve
má digestão
gases
retenção de líquidos
O que diz a ciência?
Estudos experimentais demonstram:
atividade antioxidante
atividade antimicrobiana contra algumas bactérias
potencial anti-inflamatório
presença de compostos fenólicos
Entretanto, ainda não existem evidências clínicas suficientes para confirmar sua eficácia terapêutica em humanos, motivo pelo qual seu uso deve permanecer complementar e nunca substituir tratamentos médicos.
Constituintes fitoquímicos
Entre os compostos identificados destacam-se:
glucosinolatos
isotiocianatos
flavonoides
compostos fenólicos
quercetina
kaempferol
vitamina C
carotenoides
minerais
Como ocorre com outras Brassicaceae, os glucosinolatos originam compostos sulfurados biologicamente ativos após a maceração da planta.
Toxicidade e interações medicamentosas
Quando utilizado como alimento, o mentruz apresenta bom perfil de segurança.
O uso medicinal prolongado ou em grandes quantidades não foi adequadamente estudado.
Pessoas com:
hipotireoidismo
doenças da tireoide
insuficiência renal grave
gestantes
lactantes
devem evitar o uso medicinal sem orientação profissional.
Pode potencialmente interferir em medicamentos anticoagulantes devido ao conteúdo de vitamina K presente nas folhas.
Modo de uso tradicional
Na medicina popular utiliza-se principalmente:
Infusão
1 colher de sopa das folhas frescas ou secas para uma xícara de água quente.
Infundir por cerca de 10 minutos.
Consumir ocasionalmente.
Uso culinário
As folhas jovens podem ser consumidas:
cruas
refogadas
em omeletes
em sopas
como tempero
Sempre em pequenas quantidades devido ao sabor bastante marcante.
Mentruz como PANC
O mentruz é reconhecido como uma Planta Alimentícia Não Convencional (PANC).
As partes consumidas incluem:
folhas jovens
brotos
inflorescências muito novas
O sabor lembra uma mistura entre:
agrião
mostarda
rúcula
Pode substituir essas hortaliças em pequenas proporções.
Atenção
Utilize apenas plantas:
cultivadas para consumo
provenientes de hortas
longe de rodovias
livres de esgoto
livres de contaminação química
sem pulverização por agrotóxicos.
Nunca consuma plantas coletadas em áreas potencialmente contaminadas.
Informações nutricionais e nutracêuticas
Embora existam poucos estudos específicos sobre a composição centesimal de Coronopus didymus, as análises disponíveis indicam que as folhas apresentam:
elevado teor de vitamina C
carotenoides
fibras alimentares
cálcio
ferro
potássio
magnésio
compostos fenólicos antioxidantes
glucosinolatos bioativos
Esses compostos conferem potencial nutracêutico relacionado à proteção antioxidante e ao auxílio na manutenção da saúde cardiovascular e imunológica, embora tais efeitos ainda necessitem de confirmação clínica.
Receita tradicional
Omelete caipira de mentruz
Ingredientes
2 ovos
1 punhado de folhas jovens de mentruz
cebola picada
azeite
sal
pimenta-do-reino
Preparo
Lave cuidadosamente as folhas. Refogue rapidamente com a cebola em um fio de azeite. Bata os ovos, misture às folhas e cozinhe em fogo baixo até dourar. Sirva acompanhada de salada fresca ou arroz integral.
Dicas de cultivo
O mentruz é extremamente fácil de cultivar.
Prefere:
sol pleno
meia-sombra
solos férteis
boa drenagem
irrigação moderada
Propaga-se quase exclusivamente por sementes, germinando poucos dias após a semeadura.
Em hortas agroecológicas pode surgir espontaneamente.
Curiosidades
O aroma intenso do mentruz é característico da família Brassicaceae.
Seu nome popular varia bastante entre estados brasileiros, sendo frequentemente confundido com o mastruz (Dysphania ambrosioides), planta de outra família botânica.
Na Europa é considerado planta espontânea, enquanto na América Latina permanece importante recurso alimentar tradicional.
Seu sabor picante resulta da liberação de isotiocianatos, compostos semelhantes aos encontrados na mostarda e no wasabi.
Etnobotânica e história
Diversos povos rurais utilizam o mentruz há séculos como alimento de épocas de escassez.
No sul do Brasil era comum seu uso em sopas e saladas durante o inverno.
Em comunidades agrícolas continua sendo considerado uma hortaliça espontânea de alto valor nutricional.
Referências
Flora e Funga do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Coronopus didymus. https://floradobrasil.jbrj.gov.br/
Plants of the World Online (POWO). Royal Botanic Gardens, Kew. Coronopus didymus. https://powo.science.kew.org/
Kinupp VF, Lorenzi H. Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil. Instituto Plantarum.
Lorenzi H, Matos FJA. Plantas Medicinais no Brasil: Nativas e Exóticas. Instituto Plantarum.
Duke JA. Handbook of Medicinal Herbs. CRC Press.
PubMed – estudos sobre atividade antioxidante e antimicrobiana de Coronopus didymus. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/
SciELO Brasil – artigos sobre Brassicaceae, compostos fenólicos e plantas medicinais. https://www.scielo.br/





Nenhum comentário:
Postar um comentário
Você já conhecia as propriedades desta planta? Deixe sua contribuição comentando aqui: