Conhecida como arnica-paulista, couvinha ou couve-cravinho, Porophyllum ruderale é uma erva aromática que reúne tradição medicinal, uso alimentar e interessante diversidade de compostos bioativos. Suas folhas podem ser utilizadas como tempero e fazem parte da alimentação tradicional em diferentes regiões das Américas.
Identificação botânica
Nome científico: Porophyllum ruderale (Jacq.) Cass.
Família: Asteraceae
Gênero: Porophyllum
Sinonímia
A espécie possui diversos nomes científicos históricos, entre eles:
Cacalia porophyllum L.
Cacalia ruderalis (Jacq.) Sw.
Kleinia porophyllum (L.) Willd.
Kleinia ruderalis Jacq.
Porophyllum ellipticum Cass.
Porophyllum porophyllum (L.) Kuntze.
A literatura taxonômica também reconhece variedades ou subespécies dentro do complexo de P. ruderale, o que ajuda a explicar parte da variação morfológica e química observada entre populações.
Nomes populares
No Brasil, são encontrados nomes como:
arnica-paulista; arnica-do-campo; arnica-do-mato; arnica-da-praia; couvinha; couve-cravinho; cravinho; picão-branco; erva-couvinha; couve-de-galinha; couve-de-veado.
No México e em outros países latino-americanos, é conhecida como pápalo, papaloquelite, quilquiña ou nomes semelhantes.
É importante lembrar que “arnica” é um nome popular compartilhado por várias espécies e não deve ser usado sozinho para identificar a planta.
Classificação botânica – APG IV
Reino: Plantae
Clado: Angiospermas
Clado: Eudicotiledôneas
Clado: Eudicotiledôneas centrais
Clado: Asterídeas
Ordem: Asterales
Família: Asteraceae
Subfamília: Asteroideae
Tribo: Tageteae
Gênero: Porophyllum
Espécie: Porophyllum ruderale (Jacq.) Cass.
A classificação do grupo é compatível com sistemas taxonômicos modernos baseados no APG IV.
Descrição botânica
Porophyllum ruderale é uma erva anual, aromática e geralmente ereta, que pode atingir aproximadamente 60 cm a 1,2 m de altura, embora seu porte varie de acordo com a população, ambiente e condições de cultivo. O caule é ramificado, cilíndrico e geralmente glabro.
Suas folhas são simples, inteiras e relativamente espessas, apresentando coloração verde-escura. Um dos aspectos mais interessantes da espécie é a presença de estruturas secretoras associadas à produção e armazenamento de substâncias lipídicas e fenólicas. Quando as folhas são amassadas, liberam um aroma marcante, característico da planta.
As inflorescências são capítulos típicos da família Asteraceae, geralmente terminais e de formato cilíndrico. As flores podem apresentar tonalidade creme a amarelada. Após a fecundação são formados frutos secos do tipo cipsela, acompanhados por estruturas que auxiliam sua dispersão pelo vento.
É uma planta típica de ambientes abertos e também pode ocorrer em áreas alteradas pela atividade humana, razão pela qual recebe o epíteto “ruderal”.
Origem e distribuição
Porophyllum ruderale é nativa das Américas tropicais e subtropicais, apresentando ampla distribuição desde regiões do sul dos Estados Unidos e Caribe até a América do Sul.
No Brasil, possui ampla ocorrência, estando registrada em praticamente todas as regiões do país e em diferentes tipos de vegetação, inclusive ambientes antropizados.
Essa ampla distribuição contribuiu para a existência de diferentes nomes populares, formas de utilização e características químicas entre populações.
Usos medicinais e indicações fitoterápicas
A arnica-paulista possui longa história de utilização na medicina popular brasileira e latino-americana.
No Brasil, folhas e raízes são tradicionalmente utilizadas principalmente em preparações relacionadas a contusões, traumatismos, dores, inflamações e processos de cicatrização. Também existem registros etnobotânicos de utilização para hipertensão, reumatismo, edemas e outras condições.
Estudos experimentais investigaram propriedades anti-inflamatórias, antinociceptivas (relacionadas à redução da percepção da dor), antioxidantes, antimicrobianas e antiespasmódicas. Há também pesquisas experimentais sobre possível atividade hepatoprotetora e nefroprotetora.
E a ação contra a hipertensão?
O uso tradicional da espécie para hipertensão está documentado em levantamentos etnobotânicos. Entretanto, não é correto afirmar que sua ação hipotensora esteja comprovada clinicamente em seres humanos.
Existem estudos experimentais que justificam o interesse científico pela planta, mas ainda faltam ensaios clínicos robustos capazes de estabelecer eficácia, dose e segurança para tratamento da hipertensão.
Portanto, P. ruderale não deve substituir medicamentos anti-hipertensivos prescritos.
Potencial antioxidante
O potencial antioxidante é uma das áreas mais interessantes da pesquisa atual.
Extratos de P. ruderale apresentaram atividade antioxidante em diferentes ensaios laboratoriais, incluindo DPPH, ABTS e FRAP. Pesquisas também identificaram quantidade significativa de compostos fenólicos e flavonoides nas folhas.
Um estudo publicado em 2025 comparou extratos de folhas e flores e encontrou atividade antioxidante mensurável, com diferenças entre as partes da planta. Foram identificados compostos como fitol, α-tocoferol e outros constituintes.
É importante, porém, fazer uma distinção: atividade antioxidante observada em laboratório não significa automaticamente efeito antioxidante terapêutico no organismo humano.
Constituintes fitoquímicos
A composição química de P. ruderale é bastante interessante e varia conforme a população, condições ambientais, estágio de desenvolvimento e parte utilizada.
Entre os grupos de compostos já descritos estão:
compostos fenólicos;
flavonoides;
taninos;
carotenoides;
ácidos graxos;
cumarinas;
saponinas;
mucilagens;
triterpenoides;
compostos acetilênicos;
derivados de tiofeno;
constituintes do óleo essencial.
As folhas apresentam estruturas secretoras associadas à presença de compostos fenólicos e lipídicos.
Óleo essencial
O óleo essencial da espécie apresenta grande variabilidade química.
Em uma população estudada na Bolívia, o sabinene foi o principal componente, representando aproximadamente 64% do óleo.
Em outro estudo brasileiro envolvendo diferentes subespécies, o óleo de P. ruderale subsp. macrocephalum apresentou limoneno como principal componente, enquanto a subsp. ruderale apresentou predominância de E-β-ocimeno, além de limoneno e β-pineno.
Essa variação é importante porque demonstra que não se deve considerar o óleo essencial de todas as populações como quimicamente idêntico.
Toxicidade e interações medicamentosas
Apesar do histórico de uso tradicional, a segurança medicinal da espécie ainda não está completamente estabelecida.
O Horto Didático de Plantas Medicinais da Universidade Federal de Santa Catarina destaca a insuficiência de estudos clínicos, de interações medicamentosas e de efeitos adversos para estabelecer um uso interno seguro. Também registra a possibilidade de reações cutâneas em pessoas sensíveis.
Cuidados importantes
O uso medicinal interno deve ser especialmente cauteloso em:
gestantes;
lactantes;
crianças;
pessoas com doença hepática ou renal;
pessoas que utilizam medicamentos continuamente;
indivíduos com alergia a plantas da família Asteraceae.
Como há relatos tradicionais de utilização para hipertensão e a planta apresenta atividade biológica experimental, recomenda-se atenção especial quando utilizada junto a anti-hipertensivos.
Não há evidências suficientes para estabelecer uma dose terapêutica máxima ou um período máximo de uso interno cientificamente validado.
Modo de uso tradicional
Na medicina popular, diferentes partes da planta podem ser utilizadas de maneiras distintas.
Uso externo
A preparação de folhas ou extratos para aplicação externa é tradicionalmente associada ao cuidado de:
contusões;
traumatismos;
dores musculares;
inflamações locais.
Uso interno
Há registros tradicionais de infusões e outras preparações com folhas, caules ou raízes para diferentes finalidades.
Entretanto, devido à insuficiência de dados clínicos sobre dose, segurança e interações, não é recomendável apresentar uma receita de chá como tratamento de hipertensão ou outras doenças.
Para o blog, é mais seguro caracterizar essas preparações como usos tradicionais, deixando claro que não equivalem a protocolos fitoterápicos clínicos.
Arnica-paulista como PANC
Um dos aspectos mais interessantes de Porophyllum ruderale é que ela não é apenas uma planta medicinal: também possui tradição alimentar.
No México, o chamado pápalo ou papaloquelite é utilizado como hortaliça aromática e condimento. As folhas apresentam sabor intenso e característico, frequentemente descrito como uma combinação de notas herbáceas semelhantes a coentro, rúcula e outras ervas aromáticas.
No Brasil, a planta também é conhecida como couve-cravinho e aparece em registros de uso culinário como tempero.
As folhas jovens são as partes mais interessantes para utilização culinária.
Uso como tempero
As folhas podem ser utilizadas:
cruas em saladas;
picadas sobre feijão;
em molhos;
em farofas;
em recheios;
em sopas;
em refogados;
para aromatizar pratos de legumes;
como erva fresca em sanduíches e preparações culinárias.
Seu aroma intenso faz com que pequenas quantidades sejam suficientes.
Informações nutricionais e nutracêuticas
Estudos recentes caracterizaram P. ruderale como uma planta alimentícia pouco valorizada, mas com interesse nutricional e funcional.
Análises de folhas e caules tenros encontraram proteínas, fibras, carboidratos, minerais e compostos bioativos. O ferro foi um dos micronutrientes de destaque no estudo. Também foram observados polifenóis e atividade antioxidante.
A composição, entretanto, varia de acordo com o ambiente, idade da planta, manejo e condições de cultivo. Por isso, os valores encontrados em um estudo não devem ser tratados como uma composição nutricional universal.
Potencial nutracêutico
A presença de compostos fenólicos e flavonoides torna a planta interessante do ponto de vista nutracêutico, especialmente como alimento aromático que contribui para a diversidade da dieta.
Entretanto, alimento funcional não é sinônimo de medicamento. O consumo culinário deve ser valorizado principalmente dentro de uma alimentação variada e equilibrada.
Receita: molho verde de couvinha
Ingredientes
1 xícara de folhas jovens de Porophyllum ruderale;
1 tomate maduro;
½ cebola pequena;
suco de ½ limão;
1 colher de sopa de azeite;
sal a gosto;
pimenta a gosto.
Preparo
Lave cuidadosamente as folhas e pique-as finamente. Misture com o tomate e a cebola picados. Acrescente o suco de limão, azeite, sal e pimenta. Deixe descansar por alguns minutos para que os aromas se integrem.
O molho pode acompanhar feijão, arroz, legumes, carnes ou preparações vegetarianas.
Importante: para consumo alimentar, utilize somente plantas corretamente identificadas e cultivadas ou coletadas em local seguro.
Segurança para uso alimentar
Nunca colha Porophyllum ruderale simplesmente porque a planta “parece” com a arnica-paulista.
Para consumo como PANC, a planta deve ser:
corretamente identificada botanicamente;
proveniente de cultivo próprio ou fornecedor confiável;
livre de contato com agrotóxicos;
distante de estradas movimentadas;
distante de áreas contaminadas por esgoto ou resíduos;
lavada adequadamente antes do consumo.
Nunca utilize para alimentação plantas coletadas em beiras de estrada, terrenos tratados com herbicidas ou locais sujeitos à contaminação.
Dicas de cultivo
A arnica-paulista é uma espécie relativamente rústica e pode ser interessante para hortas de plantas medicinais e PANC.
Luz
Prefere locais bem iluminados, podendo desenvolver-se satisfatoriamente sob sol direto.
Solo
O ideal é um solo bem drenado, com boa disponibilidade de matéria orgânica. Evite terrenos permanentemente encharcados.
Rega
Durante o estabelecimento das mudas, mantenha umidade regular. Depois de estabelecida, a planta apresenta boa adaptação a períodos de menor disponibilidade de água.
Propagação
A propagação por sementes é uma das formas mais utilizadas.
A semeadura pode ser feita em pequenos recipientes ou diretamente no canteiro, mantendo o substrato úmido durante a germinação.
Colheita
Para uso culinário, dê preferência às folhas jovens e tenras. A colheita frequente das pontas pode estimular a ramificação.
Curiosidades
Uma planta com muitos nomes
A grande quantidade de nomes populares revela a importância cultural da espécie em diferentes regiões. “Couvinha”, “couve-cravinho”, “arnica-paulista” e “pápalo” representam diferentes relações culturais com a mesma planta.
Pápalo: uma PANC tradicional mexicana
No México, o pápaloquelite é consumido há gerações e integra o grupo dos chamados quelites, plantas espontâneas ou cultivadas utilizadas tradicionalmente como alimentos.
Aroma produzido por estruturas especializadas
A planta possui estruturas secretoras nas folhas e caules associadas a compostos lipídicos e fenólicos. Essas estruturas contribuem para seu aroma característico e para sua interessante química vegetal.
Uma espécie quimicamente variável
A composição do óleo essencial pode mudar bastante entre populações. Limoneno, E-β-ocimeno e sabineno podem aparecer como componentes majoritários dependendo da origem e do grupo estudado.
Conclusão
A arnica-paulista (Porophyllum ruderale) é uma planta que merece atenção justamente por reunir etnobotânica, alimentação, medicina popular e potencial farmacológico.
Seu uso tradicional para contusões, dores e inflamações encontra respaldo em pesquisas experimentais que investigam atividades antioxidantes, anti-inflamatórias e analgésicas. A presença de compostos fenólicos e outros metabólitos secundários também desperta interesse científico.
Por outro lado, ainda são necessários estudos clínicos bem conduzidos para determinar eficácia, doses e segurança. O mesmo cuidado vale para a alegada ação hipotensora: há tradição de uso para hipertensão, mas não há evidência clínica suficiente para considerá-la um tratamento comprovado.
Como PANC, entretanto, a espécie apresenta uma oportunidade interessante para ampliar a diversidade alimentar, desde que corretamente identificada e cultivada em condições seguras.
Referências científicas
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Flora e Funga do Brasil – Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Porophyllum ruderale (Jacq.) Cass. (Flora do Brasil)
Plants of the World Online – Royal Botanic Gardens, Kew. Porophyllum ruderale (Jacq.) Cass. (Plants of the World Online)
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| Arnica-paulista (Porophyllum ruderale) - Aspecto da planta jovem - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 09/2026 |
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| Arnica-paulista (Porophyllum ruderale) - Aspecto da planta jovem - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 09/2026 |
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| Arnica-paulista (Porophyllum ruderale) - Aspecto da inflorescência (capítulo) - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 09/2026 |
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| Arnica-paulista (Porophyllum ruderale) - Aspecto da inflorescência (Capítulo) - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 09/2026 |
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| Arnica-paulista (Porophyllum ruderale) - Aspecto da planta jovem - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão-MG - 09/2026 |






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