Uma artemísia aromática presente na medicina popular
A losna-brava, também conhecida como artemísia, losna ou pronto-alívio, é uma planta aromática da família Asteraceae que chama atenção pelo odor intenso de suas folhas e pela longa tradição de uso popular. No Brasil, é encontrada principalmente em ambientes antropizados e aparece registrada em diferentes regiões do país.
Embora seja utilizada tradicionalmente para problemas digestivos, respiratórios e circulatórios, é importante diferenciar uso tradicional de eficácia clínica comprovada. Estudos recentes identificaram diversos compostos bioativos em seus extratos e demonstraram atividades antioxidantes em laboratório, mas ainda são necessários estudos clínicos para estabelecer indicações terapêuticas, doses e segurança de uso prolongado.
Identificação botânica
Nome científico
Artemisia verlotiorum Lamotte
A espécie pertence ao gênero Artemisia, um dos grupos mais conhecidos da família Asteraceae, que reúne numerosas espécies aromáticas e medicinais.
Sinonímia
Entre os nomes científicos encontrados na literatura estão:
Artemisia verlotorum Lamotte;
Artemisia vulgaris subsp. verlotiorum (Lamotte) Bonnier;
Artemisia vulgaris f. serratifolia Regel;
Artemisia dubia subf. puberula Pamp.
A sinonímia é especialmente importante porque A. verlotiorum apresenta semelhanças morfológicas com outras espécies do gênero, particularmente Artemisia vulgaris.
Nomes populares
No Brasil, são registrados os nomes losna-brava, losna, artemísia, absinto e pronto-alívio. A Flora e Funga do Brasil registra esses nomes vernaculares para a espécie.
Classificação botânica – APG IV
Reino: Plantae
Clado: Angiospermas
Clado: Eudicotiledôneas
Clado: Eudicotiledôneas nucleares
Ordem: Asterales
Família: Asteraceae
Gênero: Artemisia
Espécie: Artemisia verlotiorum Lamotte
A classificação da espécie dentro de Asteraceae e Asterales é compatível com os sistemas taxonômicos atualmente utilizados.
Descrição botânica
A losna-brava é uma erva perene, podendo apresentar aspecto de pequeno arbusto, geralmente aromática e com crescimento vigoroso. A espécie possui estruturas subterrâneas e pode formar populações extensas, característica que contribui para sua capacidade de persistir em áreas alteradas.
As folhas apresentam morfologia variável de acordo com a posição no caule. As folhas inferiores são geralmente pecioladas, enquanto as superiores podem ser quase sésseis ou sésseis. A lâmina foliar pode ser profundamente dividida, com segmentos característicos, apresentando coloração verde na face superior e aspecto mais claro e densamente piloso na face inferior. A Flora e Funga do Brasil descreve ainda a presença de pontuações glandulares na face superior das folhas.
As inflorescências são constituídas por pequenos capítulos, típicos da família Asteraceae. As flores marginais são femininas e as flores do disco são bissexuais. Os frutos são cipselas, pequenos frutos secos característicos da família.
Uma característica bastante marcante é seu aroma forte e penetrante, relacionado à presença de substâncias voláteis produzidas pelas estruturas secretoras da planta.
Origem e distribuição no Brasil
Artemisia verlotiorum é originária de regiões da Ásia, sendo atualmente encontrada também em diversas partes do mundo como espécie introduzida e naturalizada. No Brasil, é considerada naturalizada e não endêmica.
A Flora e Funga do Brasil registra sua ocorrência nos domínios da Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal, especialmente em áreas antrópicas. Há registros confirmados para Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo.
Outras bases de distribuição botânica registram a espécie em diferentes estados brasileiros, indicando uma distribuição mais ampla.
É encontrada frequentemente em locais alterados, terrenos baldios, margens de áreas agrícolas e ambientes onde a vegetação natural foi modificada.
Usos medicinais e indicações na medicina popular
A losna-brava possui histórico de utilização tradicional em diferentes regiões do mundo. No Brasil, registros etnobotânicos associam seu uso popular principalmente a problemas dos sistemas digestivo, respiratório, geniturinário e circulatório. Também existem registros de utilização tradicional como analgésico e para estados febris.
Entretanto, é fundamental fazer uma distinção: esses registros não significam que a eficácia clínica dessas indicações esteja comprovada.
Um estudo de 2022 destacou justamente que, apesar do histórico tradicional da espécie, suas propriedades farmacológicas ainda são relativamente pouco estudadas.
Atividade antioxidante
A espécie apresenta interesse científico devido à presença de compostos fenólicos e flavonoides.
Em estudo experimental publicado na revista Molecules, diferentes extratos de A. verlotiorum apresentaram atividade antioxidante, sendo o extrato aquoso aquele que apresentou maior atividade nos ensaios realizados. Foram identificados 25 constituintes fitoquímicos nos diferentes extratos, com destaque para ácidos fenólicos e flavonoides.
Esses resultados são promissores para a pesquisa farmacológica, mas atividade antioxidante observada em laboratório não permite afirmar que o consumo da planta previna ou trate doenças relacionadas ao estresse oxidativo em seres humanos.
Hipertensão arterial
A hipertensão aparece entre os usos tradicionais registrados para A. verlotiorum, inclusive em algumas tradições medicinais europeias.
Porém, não há evidência clínica suficiente para considerar a losna-brava uma planta comprovadamente hipotensora ou recomendar seu uso como tratamento da hipertensão.
Portanto, pessoas que utilizam medicamentos anti-hipertensivos não devem substituir seu tratamento pela planta.
Constituintes fitoquímicos
A composição química de Artemisia verlotiorum é complexa e pode variar de acordo com origem geográfica, estação do ano, parte utilizada e condições ambientais.
Entre os grupos identificados estão:
ácidos fenólicos;
flavonoides;
flavonóis;
ácidos hidroxicinâmicos;
sesquiterpenos;
monoterpenos;
componentes do óleo essencial.
Estudo fitoquímico utilizando diferentes solventes identificou 25 constituintes nos extratos analisados, com predominância de ácidos fenólicos e flavonoides.
Entre os compostos fenólicos identificados em estudos com a espécie encontram-se derivados de ácidos cafeoilquínicos, incluindo ácido clorogênico e diferentes ácidos dicafeoilquínicos.
Óleo essencial: uma composição bastante variável
O óleo essencial merece atenção especial. Estudos demonstram significativa variação na sua composição conforme a época de coleta e a região onde a planta cresce.
Entre os principais componentes identificados estão:
1,8-cineol, germacreno D, α-tujona, β-tujona, β-cariofileno, borneol, cânfora e mirceno.
Em um estudo realizado ao longo de um ano, o 1,8-cineol variou aproximadamente entre 12,8% e 32,2%, enquanto α- e β-tujona, cânfora, borneol e outros terpenos também apresentaram variações importantes.
Isso demonstra que não existe necessariamente um único "perfil químico" da losna-brava.
Essa variação é particularmente importante quando se pensa em preparar extratos concentrados ou utilizar óleo essencial.
Toxicidade, cuidados e interações
A losna-brava não deve ser considerada automaticamente segura apenas por ser uma planta tradicional.
Um dos principais pontos de atenção é o óleo essencial, cuja composição pode apresentar tujona, cânfora e outros monoterpenos em concentrações variáveis. A tujona é uma substância que merece cautela devido aos seus efeitos neuroativos em determinadas concentrações.
Por essa razão:
não é recomendável ingerir o óleo essencial da planta;
não se deve utilizar extratos concentrados por conta própria;
gestantes e lactantes devem evitar o uso medicinal sem orientação profissional;
pessoas com epilepsia ou histórico de convulsões devem ter especial cautela;
pessoas que utilizam medicamentos de uso contínuo devem consultar profissional de saúde antes do uso medicinal.
Os estudos disponíveis ainda não permitem estabelecer uma dose terapêutica segura e universal nem um período máximo de utilização para a losna-brava.
Também não há base suficiente para estabelecer interações medicamentosas específicas de forma conclusiva. Portanto, a prudência é especialmente importante quando houver uso concomitante com medicamentos que atuem no sistema nervoso, anticonvulsivantes ou outros medicamentos de uso contínuo.
Modo de uso tradicional
Na medicina popular, espécies do gênero Artemisia são tradicionalmente utilizadas principalmente na forma de infusão ou decocção das partes aéreas, especialmente folhas.
Entretanto, para Artemisia verlotiorum, não há atualmente uma posologia clínica padronizada e suficientemente validada que permita recomendar uma dose medicinal específica para o público em geral.
Assim, o uso tradicional não deve ser confundido com uma prescrição fitoterápica.
Para uma publicação de educação em plantas medicinais, a recomendação mais segura é não estabelecer uma dose caseira fixa para tratamento de doenças, especialmente devido à variação da composição química da planta.
Uso alimentar e condimentar
Há registros de utilização alimentar de Artemisia verlotiorum em algumas culturas, especialmente suas folhas e partes jovens. A literatura sobre o gênero Artemisia também registra o emprego de diferentes espécies como ervas aromáticas, condimentos e alimentos.
Entretanto, o uso alimentar da losna-brava não é tão consolidado no Brasil quanto o uso medicinal popular.
Como a composição do óleo essencial pode variar e a espécie pode conter tujona, não é recomendável incentivar o consumo frequente ou em grandes quantidades.
Caso seja utilizada como erva aromática, deve ser identificada corretamente e proveniente de cultivo destinado ao consumo, sem exposição a agrotóxicos, contaminantes, águas servidas, estradas movimentadas ou áreas onde tenham sido aplicados produtos químicos.
Nunca colher plantas medicinais ou alimentícias de beiras de estradas, terrenos baldios ou locais sujeitos à contaminação.
Uso no paisagismo
Apesar de não ser uma das espécies mais utilizadas no paisagismo convencional, a losna-brava pode apresentar interesse para jardins de caráter medicinal, etnobotânico ou de coleção de plantas aromáticas.
Seu principal atrativo é o aspecto das folhas, o porte herbáceo e o aroma característico.
Por apresentar crescimento vigoroso e capacidade de expansão, deve-se evitar seu plantio em locais onde possa competir com espécies ornamentais mais delicadas.
Em jardins educativos, pode ser utilizada para demonstrar a diversidade das Asteraceae e para abordar a relação entre plantas aromáticas, medicina tradicional e fitoquímica.
Dicas de cultivo
Artemisia verlotiorum é uma planta rústica, adaptada a diferentes condições ambientais.
Prefere solos bem drenados e pode desenvolver-se em áreas com boa luminosidade. A disponibilidade de luz influencia seu crescimento e também pode modificar a produção de metabólitos secundários e compostos voláteis.
A propagação pode ocorrer vegetativamente, especialmente por estruturas subterrâneas, além da reprodução por sementes quando estas são viáveis.
Como apresenta comportamento naturalizado em várias regiões, é recomendável manter o cultivo controlado para evitar sua expansão para áreas onde não seja desejada.
Para uso medicinal ou alimentar, deve-se preferir cultivo próprio, identificado botanicamente e conduzido sem exposição a agrotóxicos ou outras fontes de contaminação.
Curiosidades e etnobotânica
O nome Artemisia está relacionado a uma longa tradição histórica de plantas aromáticas utilizadas em diferentes sistemas tradicionais de medicina.
Artemisia verlotiorum apresenta uma história particularmente interessante de dispersão. Embora tenha origem asiática, tornou-se naturalizada em diversas regiões do mundo, inclusive no Brasil.
A espécie também apresenta uma relação curiosa com a medicina tradicional chinesa. Na região de Lingnan, na China, suas folhas são utilizadas localmente como substitutas de Artemisia argyi, espécie tradicionalmente conhecida como Ai Ye. Estudos químicos demonstraram que as duas espécies possuem compostos em comum, mas também apresentam diferenças importantes em sua composição.
Esse fato é um excelente exemplo de como plantas botanicamente semelhantes ou utilizadas como substitutas em determinadas culturas não devem ser automaticamente consideradas equivalentes do ponto de vista medicinal.
Outro aspecto interessante é o potencial do óleo essencial da espécie. Pesquisas experimentais avaliaram seu efeito repelente contra o mosquito Aedes albopictus, observando atividade repelente e efeito sobre a oviposição e larvas. Esses resultados são interessantes para a pesquisa de produtos naturais, mas não significam que o uso doméstico da planta ou de seu óleo essencial possa substituir repelentes registrados.
O que a ciência já sabe — e o que ainda falta descobrir?
A losna-brava é uma espécie que apresenta forte tradição etnobotânica e interessante diversidade química, mas ainda existe uma lacuna entre o conhecimento tradicional e a comprovação clínica.
Os estudos disponíveis sustentam:
Já demonstrado em estudos experimentais:
presença de compostos fenólicos e flavonoides;
atividade antioxidante de extratos;
diversidade química do óleo essencial;
presença variável de 1,8-cineol, tujona, cânfora, borneol e outros terpenos;
atividade biológica em modelos laboratoriais.
Ainda não suficientemente demonstrado em humanos:
eficácia terapêutica para hipertensão;
eficácia para doenças digestivas específicas;
eficácia como analgésico ou antitérmico;
segurança do uso prolongado;
dose terapêutica padronizada;
perfil completo de interações medicamentosas.
Essa distinção é fundamental para que o conhecimento popular seja valorizado sem transformar resultados preliminares em promessas terapêuticas.
Referências científicas
Flora e Funga do Brasil – Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Artemisia verlotiorum Lamotte. Dados taxonômicos, distribuição e descrição morfológica.
Flora e Funga do Brasil – *Artemisia verlotiorum*Royal Botanic Gardens, Kew – Plants of the World Online. Artemisia verlotiorum Lamotte. Taxonomia, distribuição nativa e introduzida e sinonímia.
Plants of the World Online – *Artemisia verlotiorum*Suroowan S, et al. (2022). Phytochemical Characterization, Anti-Oxidant, Anti-Enzymatic and Cytotoxic Effects of Artemisia verlotiorum Lamotte Extracts: A New Source of Bioactive Agents. Molecules, 27(18):5886.
PubMed – estudo fitoquímico de *Artemisia verlotiorum*Chericoni S, Flamini G, Campeol E, Cioni PL, Morelli I. (2004). GC–MS analyses of the essential oil from the aerial parts of Artemisia verlotiorum: variability during the year. Biochemical Systematics and Ecology, 32(4):423–429.
Artigo – composição do óleo essencial de *Artemisia verlotiorum*Fraisse D, Carnat A-P, Carnat A, Guédon D, Lamaison J-L. (2003). Hydroxycinnamic acid levels of various batches from mugwort flowering tops. Annales Pharmaceutiques Françaises, 61(4):265–268.
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SciELO – Rodriguésia
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| Losna-brava (Artemisia verlotiorum) - Inflorescências (Capítulos) - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão - MG - 09/2026 |
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| Losna-brava (Artemisia verlotiorum) - Inflorescências (Capítulos) - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão - MG - 09/2026 |
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| Losna-brava (Artemisia verlotiorum) - Ramos - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão - MG - 09/2026 |
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| Losna-brava (Artemisia verlotiorum) - Ramos - Foto: José Carlos Bueno - Bueno Brandão - MG - 09/2026 |





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